Montevideo – A capital fantasma (Uruguai)

A primeira noite foi a desilusão total. Chegámos de autocarro, ainda de dia, e encontrámos uma cidade agitada, com trânsito e movimento. Ficámos alojados no centro e à noite fomos jantar fora, opção forçada por estarmos em hotel, sem cozinha. Queríamos experimentar a famosa parrilla e não podíamos sair mais desgostosos. O prato para dois era enorme, uma travessa sem fim, mas praticamente sempre com a mesma carne, rija, acompanhada de alguns pedaços, únicos (num prato para dois), de rim, intestino, salsicha, morcela e um enchido doce que desconhecíamos. Conclusão, escolham muito bem o sítio para comer a parrilla. A única coisa que se aproveitava era o molho chimichurri. Para agravar o desalento, a mesa do lado pediu um entrecosto, que só da forma como espetavam o garfo se percebia que era tenro e suculento, dando-nos um ataque de pura inveja. Saiu-nos um jantar caro, gorduroso e frustrante. Como pagámos com cartão lá recuperámos os 18% de IVA, mas pagámos 80 pesos cada de “taxa de cubierto”, uma polémica taxa praticada em alguns restaurantes do Uruguai e Argentina só por se sentarem no restaurante. Felizmente as gorjetas, ou “taxa de servicio”, não eram obrigatórias.

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A seguir ao jantar queríamos ver como a cidade que festeja o carnaval durante 60 dias se comporta com a festa a chegar. Nada! Poucas foram as ruas com agitação e quando esta existia era de um restaurante aqui e ali, mas mais nada. Andámos pela cidade velha em modo defensivo porque circulava pouca gente na rua. Salvo situações pontuais, podemos dizer que Montevideo foi a única cidade até agora onde nos sentimos algo desconfortáveis a circular à noite. Víamos a polícia em algumas ruas em bandos de 6/7 agentes, as ruas são mal iluminadas e as pessoas que deambulam são geralmente sem-abrigo, bêbados ou arrumadores. Os próprios guias não recomendam caminhar por esta área à noite. Pelo contrário, durante o dia, a cidade é completamente segura. Os autocarros são seguros e as pessoas são simpáticas e prestáveis, respondendo a todas as nossas dúvidas de turista.

O que fazer?
A visita guiada do Teatro Solís, o mais antigo da América latina, e com uma sala lindíssima. Em espanhol custa 40 pesos e em outras línguas, como português, custa 60 pesos. À quarta-feira é grátis e à segunda-feira está fechado. É um edifício de arquitetura neoclássica republicana que passou por três arquitetos – um italiano que foi despedido, um espanhol que fez a sala principal e um francês que fez as salas laterais posteriormente à construção principal – tendo demorado 16 anos a ser construído, com paragens devido à guerra civil. Funcionou como companhia privada de 1856 a 1937, mas com a 1ª guerra mundial e a vitória do Uruguai em 1930 no 1º mundial de futebol, que decorreu na cidade, os habitantes de Montevideo começaram a dispersar as suas atenções para hobbies mais baratos. Tornando-se incomportável, a companhia decidiu vender o teatro ao município. Desde então, recebe inúmeros espetáculos nacionais e internacionais (este ano vai receber a companhia de dança contemporânea de Portugal), e adotou o princípio de todos os espetáculos serem acessíveis, sem descriminar preços por tipo de lugar, contrariamente ao elitismo da sua fundação. Sem dúvida vale a pena a visita e assistir a um espetáculo.

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Perto do teatro está a Praça da Independência, que tem no centro uma estátua do general Artigas e o seu mausoléu no piso inferior. De um dos lados da praça, oposta à Avenida 18 de Julho, está a Porta da Cidade, sendo esta a única parte da muralha ainda existente. Seguindo na mesma direção começa a cidade velha, com uma rua pedonal de lojas agradáveis, até à Praça da Constituição, onde encontrámos uma feira de velharias.
No sentido oposto ao da Porta da Cidade existe a Avenida 18 de Julho, uma das ruas mais importantes do centro, e que também deve ser passagem obrigatória. Logo no início encontra-se o Palácio Salvo, com um formato de torre bastante peculiar. Tem visitas guiadas às terças, quintas e sábados às 16h, que terminam no miradouro do 24° andar, passando pelo terraço do 11°.

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O Mercado do Porto é, na baixa da cidade, é o local recomendado nos guias para almoçar. Completamente comercial, com preços altíssimos, à medida dos turistas que chegam nos cruzeiros. Ainda assim vale a visita, pelo ambiente no seu interior e arquitetura interessante. Nós acabámos por ser convencidos a experimentar a parrilla de marisco (para tentar esquecer a de carnes). Muito boa, com uma porção e preço aceitáveis (795 pesos). Ainda tivemos direito a música ao vivo e a sorte de uns artistas com bailarinas pararem à porta para umas batucadas de carnaval, o único evento carnavalesco a que assistimos durante a nossa estadia.

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Partindo da baixa, no seu início, percorremos a rambla, mas desistimos rapidamente. Estava vazia, com cheiro a lixo, não chegando a vista para compensar. Sentimos que a cidade velha está de costas voltadas para o rio. Supomos que seja melhor quanto mais se avança para norte, por exemplo até Pocitos.
O Palácio Legislativo merece a visita. É um edifício bastante imponente, do início do século XX, de arquitetura neoclássica. Próximos estão os edifícios das faculdades de medicina e química, também dignos de nota na caminhada até ao Mercado Agrícola. Este é um mercado remodelado, de construção metálica e teto em madeira, do mesmo período do palácio legislativo, que agrega algumas lojas, que vendem desde legumes, frutas, artigos para casa, produtos para celíacos, massas frescas, etc. Podem sempre almoçar ou beber uma cerveja por aqui.

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Existem vários museus que geralmente têm um dia da semana grátis. Realçamos o Museu do Carnaval, que tinha atividades durante a nossa passagem, mas ficámos tão escaldados com o aspeto da cidade velha à noite, que optamos por ir ao Teatro Solís ver uma peça de Shakespeare por 75 pesos, cerca de 2,5€!.

Onde dormir?
Quem gosta de sair à noite deve optar por ficar alojado nas zonas mais agitadas, como o bairro de Palermo. Quem, como nós, prefere gozar o período diurno, é mais prático alojar-se no centro.

Onde comer?
Para comer grelhados tenham em atenção a taxa de “cubierto” e procurem os lugares recomendados na altura da visita. Os amantes de pizza devem experimentar o “El Horno de Juan” (Pocitos ou Mercado Agrícola). São feitas em forno de lenha e servidas em porções abundantes que dão para duas pessoas.

O que beber?
A cerveja artesanal está em voga no Uruguai e só tem um problema, é mais cara que em Portugal. Mesmo as cervejas comerciais vão ser sempre mais caras. A bebida adolescente da moda é o Fernet Blanco argentino com cola. O mate também está presente em todo o lado.

Onde dançar?
Os uruguaios juram que o tango começou aqui e têm alguns espaços onde é possível assistir a uma milonga (espaços onde quem quer dançar dança, e é gratuito, tanto para assistir como para se juntarem à festa). Existem também os típicos jantares seguidos de espetáculos de tango.

Vale a pena?
Apesar de termos sentido que é uma cidade a precisar de uma nova vida, fazendo lembrar o Porto antes do boom turístico, não deixa de ser uma capital com os seus pontos de interesse, que em duas noites são facilmente percorridos. Tem a vantagem de estar entre Colónia del Sacramento (o nosso destino seguinte) e Punta del Este.
Nota – em Buenos Aires conhecemos um casal suíço que teve uma perceção diferente da cidade. Assistiram à abertura do carnaval, acharam a cidade segura e até bastante agitada.

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