Ficámos satisfeitos com a quantidade de coisas de qualidade que se podem fazer grátis em Buenos Aires.
O melhor exemplo é o Centro Cultural Kirchner, que funciona num edifício monumental, a antiga central dos correios, foi reabilitado e inaugurado em 2015, e todas as suas atividades são grátis. Para que seja acessível a toda a gente, cada pessoa pode levantar apenas até dois bilhetes por semana, sendo obrigatório apresentar a identificação no momento da recolha do bilhete. Os bilhetes podem também ser reservados aqui e têm de ser recolhidos nas duas horas anteriores ao início do espetáculo.
Ao contrário do que acontece em Portugal, na nossa opinião, não se tenta que os artistas atuem gratuitamente, mas que os patrocinadores compreendam a importância de financiar este tipo de atividades para que as mesmas sejam gratuitas para o público.
Além das exposições de arte temporárias e o próprio interesse arquitetónico do edifício, têm espetáculos de música, dança ou visuais. Nós optamos por assistir a um concerto da orquestra sinfónica da Universidade de Buenos Aires e um concerto de jazz. O primeiro concerto celebrava o início da comemoração do 80° aniversário da Rádio Nacional. Uma hora e meia de clássicos argentinos interpretados pela orquestra, de forma cronológica, desde tangos a folclores, com cantores convidados. Conhecíamos poucas músicas, para não dizer só a Libertango de Piazzolla, mas a restante plateia vibrava de cada vez que diziam o nome do compositor da música e em que programa da rádio foi apresentada pela primeira vez. O concerto de jazz a que assistimos dividiu-se em três partes, com três pianistas que trouxeram convidados. O primeiro, mais tradicional, tocou acompanhado de um saxofone. O segundo, mais extrovertido, deu uns gritos em palco e tocou um jazz mais moderno, acompanhado de bateria e baixo. A última pianista, premiada, tocou acompanhada de um trompete. Com esta fusão de estilos deu facilmente para perceber qual nos agrada mais.
Seguido desse concerto conseguimos assistir às milongas que o CCK oferece aos sábados, e foi fantástico. O tango, apesar de argentino, é como o nosso fado, nem toda a gente o ouve. Há grandes dançarinos, alguns por lazer outros por profissão, participando em torneios ou atuando para turistas. Há espetáculos acompanhados de jantar (cena y show), o que para nós é um gasto desnecessário. O ideal é ir a Palermo ou San Telmo assistir a milongas. Para nós faz mais sentido assistir aos bailarinos num ambiente informal, a dançar por prazer e não por dinheiro.
O tango é uma dança elegante, carregada de erotismo e intimidade, mas que tem uma história muito especial. A milonga já é o nosso baile de aldeia. Apesar de serem um estilo de dança representam um espaço que eles usam para dançar. Dançam Chacareras, milongas e alguns tangos. Menos do último, mais dos dois primeiros. As milongas ou “peñas milongueiras”, como lhes chamam no CCK, têm a vantagem de também incluírem música ao vivo e não apenas DJ.
Assistimos também ao ensaio geral da Orquestra Sinfónica de Buenos Aires, no Teatro Cólon. O processo de escolha foi engraçado. Fomos dois dias antes para a visita guiada, mas como custa 250 pesos, que achámos caro, perguntámos o preço dos espetáculos. Este concerto custaria 100 pesos no setor mais barato (o paraíso, a galeria mais alta), então optámos pelo concerto. Simpaticamente, a funcionária da bilheteira disse que assistir ao ensaio geral seria grátis, mas tínhamos que levantar o bilhete na manhã seguinte. E assim fizemos. Não tivemos a aula de história, mas para isso temos sempre a internet. A sala é soberba e a acústica fantástica. É um teatro mais recente que o Teatro Solís de Montevideo, mas num estilo completamente diferente, mais clássico, romântico, exibicionista e dourado. O ensaio tinha a plateia quase cheia. Com uma orquestra com cerca de 50 músicos e um coro de mais de 100. Nenhum de nós tem conhecimentos musicais para pormenores, mas para dois leigos foi muito bom. Interpretaram Carmina Burana e foi poderoso. As letras são traduzidas para espanhol e projetadas. Se forem a Buenos Aires vão ver o teatro porque merece.
Sempre que ouço uma orquestra (Raquel) lembro-me dum livro e cassete que tive da história do Pedro e do lobo (Serguei Prokofiev), em que cada personagem tinha um instrumento associado. Lembro-me porque deve ter sido a primeira vez que ouvi instrumentos de orquestra. Tenho a sorte de ter vários amigos que são músicos profissionais e que me alimentam o intelecto com concertos, ensaios e óperas, mesmo sem perceber nada de música (obrigada Miriam, és a minha artista preferida).
365 dias no mundo estiveram 7 dias em Buenos Aires, de 26 de Fevereiro a 5 de Março de 2017
Outro artigos sobre Buenos Aires:
Tango ou Milonga em Buenos Aires?
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