Ushuaia (Argentina) – O Fim do Mundo

Chegar a Ushuaia não é fácil, é caro, a viagem é longa e obriga a troca de transportes – três autocarros e um ferry. Outra opção é ir de avião, mas o caro atinge outras proporções. Muita gente que percorre a Argentina opta por cortar este destino porque encarece imenso e são dois dias e meio de viagem entre ida e volta. Quem quer mesmo conhecer Ushuaia em férias opta pelo avião ou um cruzeiro. E porquê conhecer Ushuaia? Porque é a cidade mais austral do mundo. Se esta razão não é suficiente, também dá para esquiar, fazer trekkings e é o melhor e talvez mais barato ponto de acesso à Antártida.

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Como chegar?
Ushuaia fica encostadinha ao Chile, separados pelo canal Beagle, e desligada da Argentina continental. Isso significa que as nossas 33 horas de viagem foram passadas num dentro e fora de autocarros, entre fronteiras, ferry e meras opções das companhias. Tivemos que carimbar os passaportes duas vezes, para a entrada no Chile e a reentrada na Argentina. Dão-vos um impresso para preencher, quem vai para Ushuaia está em trânsito, por isso não preenche a morada onde vai ficar hospedado. A parte dos carimbos é rápida, pelo menos na nossa viagem. Para compra de snacks na parte chilena podem-se utilizar os pesos argentinos.
O ferry foi, no mínimo, interessante. Felizmente a viagem é curta e feita pelo estreito de Magallanes, ou seja, não se faz em mar aberto, o que faz com que o mar não esteja tão agitado. Mas mesmo assim, a Patagónia é muito ventosa e apanhámos “alguma” turbulência. Dizem que há viagens em que as ondas atingem o interior do ferry, sendo necessário prender pelo menos os autocarros. Como em quase todos os ferries viaja-se fora do carro ou autocarro. Há duas salas fechadas com janelas, um bar que serve cachorros e cafetaria. Estava connosco um passageiro habitual do ferry e ele diz que para não enjoar o truque é fácil, estar bem alimentado e ir a conversar.
O autocarro mais longo foi confortável, tinha refeições, vinho, manta, almofada e entretenimento. O seguinte foi razoável e o terceiro foi o pior, mas também com a viagem mais curta.

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O que fazer?
Há alguns museus, uns pagos e três gratuitos. Os gratuitos são depois do memorial da guerra das ilhas Malvinas, são pequenos e bastante simples. Poderíamos até dizer que é dispensável a sua visita se tiverem muito que fazer. Os museus pagos são caros para o que aparentam ser.
Há imensas lojas de souvenirs, de equipamento desportivo, de montanha e roupa para esquiar. Alugam material tanto para utilizar na estadia na cidade como para levar para as expedições para a Antártida. Têm muitos restaurantes, cafés e um Hard Rock Café.
Há várias atividades para fazer, como trekking, navegar no canal do Beagle, esquiar, excursões todo o terreno, passeios de bicicleta, etc.
É daqui que partem os barcos que seguem para a Antártida. Cruzámo-nos com algumas pessoas que o iam fazer, parecendo interessante, claro, mas demasiado caro. São expedições de 10 a 12 dias em que quatro são passados em navegação e são feitas caminhadas de duas horas de manhã e de tarde, com navegação pelo meio. Vimos muitos anúncios de bilhetes de última hora a 5000 USD.
No Parque Nacional del Fin del Mundo podem-se fazer alguns trekkings e andar no comboio histórico com locomotiva a vapor. A entrada no parque custa 350 pesos e o passeio de comboio 690 pesos, percorrendo os primeiros 7km do percurso que os presos faziam para trazer lenha para a cadeia, com a duração de duas horas, entre ida e volta. Achámos caro, apesar das boas críticas, e optámos por fazer um passeio de barco no canal Beagle.

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Ushuaia acolheu durante muitos anos uma importante prisão, fechada por Perón em 1947. Os presos trabalhavam na construção da nova cadeia, na recolha de madeira, carpintaria, confeção de roupas ou sapatos. Na atualidade, o edifício alberga dois museus, um relativo à prisão, e o museu marítimo. A entrada custa 250 pesos para nacionais de países da Mercosul e 350 pesos para o resto do mundo, e tem visitas guiadas às 11:30h e 18:30h. Mais uma vez, apesar de acharmos que seria interessante, optámos por não visitar devido ao preço alto. Aliás, na nossa opinião, a Argentina é algo louca nos preços deste tipo de programas, parecendo que esticou até ao valor máximo que os turistas estrangeiros estão dispostos a pagar em férias.
Ushuaia permite várias trekkings de nível de dificuldade médio a alto, dependendo muito do clima, mas optámos por detalhar num próximo artigo.

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O passeio de barco
Para a escolha do passeio no canal Beagle fomos primeiro ao centro de informações turísticas para nos darem uma folha com todas as empresas, os tipos de passeio e os respetivos preços. É também neste centro que carimbam o passaporte a dizer que estiveram na cidade mais austral do mundo. Optámos pelo passeio de 4 horas com lanche, caminhada e cerveja artesanal. Custou 1200 pesos, operado pela Yate Tango. O funcionário que nos atendeu foi muito simpático, fez-nos um desconto de 10% e deu-nos vários vales de desconto para lojas e restaurantes da cidade. Num desses vales recebemos de oferta dois mapas que queríamos enviar para casa, tendo-nos pedido 60€ pelo envio, nos correios normais. Se algum de vocês for a Ushuaia, levem uma bandeira portuguesa para entregar na Yate Tango. Eles fazem coleção, expõem no quiosque e gostam que sejam oferecidas pelos turistas.
Fizemos o passeio no período da tarde, num barco pequeno, para cerca de 12 pessoas. Éramos 9, incluindo a guia e o capitão. A primeira paragem é junto à ilha do farol do fim do mundo para os argentinos, oficialmente o Farol Les Eclaireurs, que está descuidado, mas em funcionamento. Foi construído em 1920 e neste momento funciona automaticamente, avisando as embarcações da zona triangular posterior a este não navegável pela baixa profundidade e presença de algas. Fica a nota que o Farol de San Juan del Salvamento, mais a sul, em mar aberto, é o verdadeiro farol do fim do mundo e terá sido a inspiração de Júlio Verne para o livro O Farol do Fim do Mundo.

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De seguida, aproximamos-nos de duas ilhas, primeiro a Isla Los Pájaros, como o próprio nome indica, cheia de pássaros, principalmente corvos marinhos imperiais e corvos marinhos de Magalhães. E a segunda, a Isla Los Lobos, com lobos marinhos de duas espécies, de um pelo e dois pelos. Como o barco é pequeno consegue-se uma ótima aproximação, ficando a cerca de 5 metros dos animais. Os lobos marinhos reagem de forma diferente, alguns ignoram o barco por completo e outros ficam agitados, “gritam” e mergulham quando vêem o barco chegar.

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A verdadeira paragem com desembarque é na Ilha de Bridges, onde se faz uma caminhada de cerca de 40 minutos. Nessa caminhada é apresentada a vegetação, alguma endémica, e é onde sentimos realmente o peso do quão remoto nos encontramos.

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Durante a navegação existe mate, chá, café, chocolate quente e alfajores ou muffins. No regresso é servida a cerveja artesanal Beagle, mais escura que a portuguesa e muito mais forte.
Neste passeio conhecemos um casal interessante. Ele é americano e ela israelita, chegaram num navio cruzeiro, onde ele trabalha como pianista. Viajados, simpáticos, pessoas muito acessíveis que conhecem e adoram Portugal. Falámos dos pastéis de Belém, do melhor peixe que eles comeram na vida, em Lisboa, do casino Estoril, do Funchal e dos Açores. Ela conhecia Amália Rodrigues, que atuou em Tel Aviv há muitos anos. Falámos da palavra saudade sem tradução, de Israel e dos vários viajantes jovens israelitas com quem nos cruzámos.

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Onde dormir?
Tivemos um problema no hostel. Já começa a ser habitual, não é? Pelo menos nós começamos a sentir que os problemas fazem parte de todas as reservas e continuamos a acumular pontos na caderneta de tentativas de burla. O hostel onde ficámos, juntamente com o casal com quem viajámos, o Thomas e a Marlies, é de gestão familiar, com vários casais que revezam e tratam da cobrança e receção dos hóspedes. Nós tínhamos uma reserva bastante mais barata que a do outro casal, mas pensámos que era pela antecedência com que fizemos a reserva. Quando fomos pagar fomos surpreendidos com uma cobrança muito mais alta. Não pagámos claro, mostrando o valor do Booking. A partir daí, começou a festa! Quando falavam connosco eram muito educados, mas quando estávamos mais afastados, talvez por pensarem que não entendíamos espanhol, começavam a falar entre eles que os enganámos, quem sabe até falsificado a reserva. Pensámos que, por as pessoas não dominarem a plataforma, quando inseriram os tipos de quarto puseram uma opção de cama de casal e um preço de cama de solteiro. Ou seja, pagámos pela cama de casal, que não existe, e acabamos por ocupar duas camas de solteiro, por isso queriam o pagamento duas vezes. Cochicharam, ligaram para o Booking, insinuaram que não nos deviam dar pequeno-almoço, até que o Booking lhes explicou que o erro foi deles. Aí vieram pedir que fizéssemos as excursões com eles, para ganharem o que estavam a perder. Fizemos duas, podíamos não ter feito porque são caras, cobrando a carrinha à cabeça, quer levem uma pessoa ou nove. Como nos levaram até à rodoviária no último dia, estão perdoados, mas não podemos recomendar, mais pela atitude, mas também pela localização, a cerca de 15 minutos de caminhada a subir do centro.

365 dias no mundo estiveram 4 dias em Ushuaia, de 13 a 18 de Março de 2017
Classificação: ♥ ♥ ♥ 
Preços: caro
Categorias: patagónia, natureza, mar, vida selvagem, trekking
Essencial: Canal Beagle, Parque Nacional del Fin del Mundo, Laguna Esmeralda
Estadia Recomendada: 3 dias

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