Os trilhos do fim do mundo – Ushuaia (Argentina)

“Um pé aqui”, “aí não, que escorrega”, “será que vai valer a pena?”, “não aguento mais”, “vou cair”, “não acredito que perdi o telemóvel no meio do bosque” – A cabeça da Raquel fervilha durante toda a subida, não, a cabeça e a língua fervilham. Faz questão de mostrar que é demasiado difícil e perigoso. E é só fita, ou tem razão? Bem, para quem a acompanha parece fita, porque ela é fisicamente capaz, mas é difícil e algo perigoso. Choveu, não hoje, não ontem, não nos últimos dois dias, mas a terra demora a secar. Há lama nos trilhos marcados, escorrega e enterra as botas. Quando nos desviamos do caminho perdemos o trilho, que não é muito bem marcado.

DSC_4742

O trilho da Laguna de los Témpanos demora cerca de 7 horas. Pretende-se subir a montanha até ao glaciar Vinciguerra e ver a lagoa que se forma na sua base. Por trás da lagoa existe uma gruta de gelo, ou seja, tivemos a possibilidade de estar no interior do glaciar, a cereja no topo do bolo. Não estamos em época de avalanches, o que torna a entrada relativamente segura, apesar de caírem alguns blocos de gelo e pedras que deslizam da encosta. É emocionante, pois não é todos os dias que se consegue ficar por baixo de toneladas de gelo e neve. É frio e ouve-se e vê-se um constante pingar do gelo a derreter. O percurso começa junto a um rio, que vem desde o glaciar, seguindo-se uma longa subida íngreme, pelo meio da floresta, até a paisagem se despir novamente, substituindo as árvores pelas rochas das montanhas mais altas, na chegada à base do glaciar e lagoa. O trilho está fora da cidade, recomendando-se a ida e regresso de transporte até ao portão de entrada. Nós fomos em transporte do hostel (não fica barato, sendo cobrado por cabeça), mas felizmente foi onde a Raquel deixou cair o telemóvel e o encontrou no regresso. É também possível fazer com guia, através das agências da cidade, ou individualmente. No posto de informações recomendaram-nos fazer com guia, porque choveu e algumas árvores caíram, podendo a trilha estar obstruída. Fomos a duas agências perguntar o preço – 1700 pesos – e acabámos por fazer por nossa conta, num grupo de quatro pessoas. É um dos trilhos mais populares, encontrando-se muita gente durante o percurso. É recomendado carregar pouco peso, usar bastão, roupa e calçado impermeável. Junto ao portão há um restaurante, não muito barato, mas que serve pizzas, empanadas, tartes e outros artigos de cafetaria, um bom local para parar no regresso para descansar.

DSC_4722

O trilho mais popular de Ushuaia é o da Laguna Esmeralda, mas esse, só de galochas, dizem os guias. Nós optámos por não alugar (200 pesos cada) porque disseram-nos que a lama não era muita. A Raquel está cheia de vontade de dar uma palestra sobre o que é lama. Não chegámos a atolar, mas quase. A lama forma-se nos trilhos mais pisados, mas há um tipo de vegetação que atua como esponja por cima da água, parecendo seguro, mas afundando com o nosso peso. Apesar de parecer um jogo de obstáculos, é um percurso de baixo grau de dificuldade, com uma paisagem lindíssima, entre rios, diques de castores e montanhas. Um trilho de 10km que se faz em 4 a 5 horas. Em bosque, acaba por ser mais fácil de caminhar que o trilho de Los Témpanos, porque a mata não é tão cerrada e o desnível não é significativo. Fomos de tarde, na esperança de no regresso nos cruzarmos com os castores, apesar de sabermos que iria ser improvável. Os castores não gostam de pessoas e, se houver barulho, não saem.

DSC_4817

A Raquel gostou mais do trilho da Laguna Esmeralda, com um caminho mais estável, mais seguro, menos íngreme, e a lagoa encaixada na vegetação. Consegue-se caminhar de forma tranquila, com mais prazer. O Tiago gostou mais do trilho de Los Témpanos, por ser mais desafiante, com uma paisagem mais única, apesar de cinzenta no topo, porque não há vegetação, apenas rochas, glaciar e lagoa. Para ambos os percursos, o ideal é levar almoço para o descanso a meio caminho, junto às lagoas, para desfrutar do momento e conversar com os vizinhos antes de regressar. Ambos os trilhos, apesar de não estarmos ainda no inverno, são muito ventosos e deverão levar agasalho. Mesmo que durante o caminho baste uma t-shirt, ao chegar ao topo fica-se gelado em 5 minutos.

Durante os dois trilhos vêem-se muitas árvores mortas e caídas. Andámos a investigar e encontramos o culpado direto – os castores (e o típico culpado indireto – o homem). O castor não existia na Patagónia, mas alguém pensou que era inteligente trazer alguns para criar um negócio a partir do animal. Os argentinos não acharam grande piada ao produto, não tendo qualquer sucesso ao nível de negócio, e a Patagónia não tem predadores para os castores. O bicho multiplicou-se e fez aquilo que faz melhor, construiu diques. Os terrenos alagaram-se e passaram a estar sempre húmidos, levando a que as árvores morressem afogadas. Estima-se que já tenha destruído uma área superior a três vezes a cidade de Buenos Aires. Existe uma campanha para erradicar o animal da Patagónia argentina e chilena, sendo permitida a caça sem restrições. No Canadá, por exemplo, o castor não é um problema, existindo predadores que controlam a sua população, como ursos e lobos, e árvores de espécies que não morrem com o excesso de água.

DSC_4868

Na Laguna de los Témpanos encontrámos um grupo de 15 israelitas que se conheceram no autocarro e estavam a fazer os trilhos juntos. Em Israel, toda a gente ingressa no serviço militar obrigatório aos 18 anos (três anos para rapazes e dois para raparigas), optando na sua maioria por fazer uma grande viagem para “esquecerem” o que viram. Não sem antes trabalharem para pagar a viagem, porque o serviço militar, apesar de obrigatório, não é bem pago. A América latina é um destino muito popular, e eles são realmente bem treinados, visto que conseguem desbravar bosque “virgem”, sem seguir pelos trilhos. E também não se importam de sujar as botas. São grupos alegres, cultos, muito viajados, e que falam bastantes línguas. A Raquel contou a má experiência que teve com alguns dos seus compatriotas em Angola e um deles confessou que a maioria dos que vão para África vão apenas preocupados com dinheiro, não se importando muito com as pessoas.

Mais sobre Ushuaia no nosso outro artigo aqui

365 dias no mundo estiveram 4 dias em Ushuaia, de 13 a 18 de Março de 2017

DSC_4760

4 thoughts on “Os trilhos do fim do mundo – Ushuaia (Argentina)

  1. Tiago e Raquel. Só agora é que estou a apreciar o vosso blog. Mas que boa ideia. Estou a adorar a partilha das vossas aventuras, com fotos lindíssimas, mapas e relatos bem descritivos das vossas experiências inesquecíveis. Deve dar trabalho ao atualizarem o vosso blog, mas continuem a fazê-lo, pois para mim é muito aliciante acompanhar-vos e ter a noção do que é viajar deste modo. Beijinhos. 🙂

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s