A entrada e saída do Chile

A Argentina e o Chile dividem o sul do continente americano de forma muito peculiar. Ushuaia pertence à Argentina mas não fica colada ao continente, portanto a forma mais rápida para lá chegar por terra obriga a atravessar o estreito de Magalhães de ferry, passando por território chileno. Pode parecer estranho, mas a alternativa seria ir por mar aberto, o que não é, de todo, confortável. Então, saímos de Puerto Madryn para Rio Gallegos e, daí, seguimos para o Chile.

Quando se desce para Ushuaia não se carimba a saída da Argentina, aliás, da nossa experiência, só carimbam a saída quando a fronteira é longa, ou seja, quando o carimbo de entrada do outro país fica a alguns quilómetros da outra fronteira.

Logo no autocarro dão-nos um impresso para preencher. Os chilenos são muito rigorosos com a entrada de legumes, frutas e derivados animais no país. O impresso pede os nossos dados, mas pede principalmente para declarar valores monetários, fruta, legumes, derivados animais e produtos arqueológicos.

Na fronteira, a primeira coisa que fazemos é entregar o passaporte para emissão do talão de entrada (PDI) e colocação do carimbo. Esse talão deve ser guardado até devolução na saída do Chile. Além de ser importante para não serem “chateados” na saída, o talão também comprova que são estrangeiros não residentes, permitindo que não tenham de pagar o IVA (19%) quando utilizam dólares ou cartão de crédito estrangeiro par pagamento de alojamentos.

Depois do carimbo terão de passar pelo ministério da agricultura, onde entregam o formulário e passam a bagagem de mão no raio-x. Não vale a pena pensar que conseguem escapar deixando as maçãs ou outra coisa que levem no autocarro ou na bagagem de porão porque são revistados com cães. Se no raio-x se verificar que trazem alguma coisa, a mala é aberta e é verificado o formulário para ver se se declarou algo. Não declarar e levar artigos proibidos implica duas coisas: 1) uma multa 2) ficar sem as coisas na mesma. Há funcionários benevolentes que apenas obrigam a deixar ficar os artigos proibidos. Para não pensarem que vão passar fome por não poderem levar comida, existe sempre um bar ou quiosque que vende snacks e aceita pesos chilenos e argentinos.

O percurso dentro do Chile é curto e rapidamente está-se de regresso à Argentina, seguindo o caminho até ao fim do mundo. Ao sair do Chile entregam o talão, o funcionário carimba a saída e voltam ao autocarro. Poucos quilómetros depois estão na fronteira da Argentina, onde saem novamente do autocarro e carimbam a entrada na Argentina.

Fácil, uma viagem, três autocarros, e 3 carimbos no passaporte.

Falamos muito nos carimbos porque andamos a fazer cálculos mentais para perceber se vamos precisar de outro passaporte durante a viagem. Tínhamos contado cada país como um só carimbo, sem perceber que íamos entrar e sair várias vezes de alguns deles. Desde fevereiro já entrámos e saímos da Argentina 4 vezes.

Sair de Ushuaia é um bocadinho diferente. Apanhámos o autocarro em Ushuaia para Punta Arenas (Chile), mas parte do percurso é igual ao de ir para a Argentina. O funcionário do autocarro dá-nos o impresso da alfândega chilena e recolhe depois de preenchido. Em San Sebastián saímos da Argentina e do autocarro, indo para a fila de migração para receber o carimbo de saída da Argentina. Voltamos ao autocarro e logo à frente temos a entrada no Chile, com o motorista do autocarro a dar uma última oportunidade aos mais esquecidos para deitarem fora as frutas que possam ter. Nesta fronteira ficamos à espera algum tempo sem saber porquê. Quando chegou a nossa vez, percebemos que todas as malas saem do autocarro e são cheiradas pelo cachorro do ministério da agricultura chileno. No caminho para Ushuaia não passámos por este passo, talvez por irmos em trânsito. Vamos para a fila, carimbam o passaporte, e é nós entregue o talão de entrada no país (o PDI).

Enquanto isso, o cachorro vai marcando as malas que devem ser revistadas. Vamos para a fila do raio-x e cada um deve verificar se a sua mala de porão não está separada. Toda a bagagem passa no raio-x e, se nos mandarem abrir as malas, é porque temos legumes ou frutas, e aí começa o filme. Dependente do funcionário, pode bastar alterar a cruz do não tem frutas para tem frutas. No nosso autocarro havia uma passageira que achou que as maçãs passariam, lá foi apanhada, mas não a vimos pagar multa.

A Raquel achou piada existir um dosímetro pendurado junto à máquina de raio-x. Para quem não sabe, o dosímetro mede a dose de exposição à radiação ionizante de funcionários, estando este está a servir como dosímetro de área. Este foi o primeiro sítio onde vimos um dosímetro nessas máquinas, mas depois ainda estivemos numa fronteira onde os funcionários usavam dosímetros pessoais.

No esteiro de Magalhães apanhámos o mesmo ferry do caminho de ida, mas desta vez não havia turbulência, e ainda conseguimos ver um golfinho. Em Punta Arenas trocámos de autocarro e seguimos para Puerto Natales.

Nesta fase já estamos peritos em atravessar as fronteiras entre a Argentina e o Chile. A mais profissional foi a Cardenal Antonio Samoré, de Bariloche para Puerto Montt. Aqui todas as malas de porão saem do autocarro para umas plataformas e nós saímos com a bagagem de mão, deixando tudo noutras plataformas. O funcionário do ministério da agricultura leva o cão a dar várias voltas entre as bagagens e, aparentemente, nunca falha! Assim que eles sinalizam uma mala ou um saco, sai de lá uma maçã, bananas ou até mozzarella.

Sentimos que há um grande rigor na passagem das fronteiras da américa latina, provavelmente pelo tráfico de droga. Na Argentina, os autocarros são parados várias vezes e revistados por carabineros com cães, à procura de droga. A própria aplicação do viajante avisa que têm havido alguns problemas com turistas apanhados com droga. Se antigamente se falava apenas no México ou Colômbia, agora a Argentina também viu aumentar o tráfico da droga dentro do país, e a criminalidade associada também.

Por causa do drone, fomos mais uma vez à Argentina, desta vez a Mendoza. Foi uma estadia tão curta (uma noite) que se resumiu a chegar de madrugada, dormir, passear um pouco a pé pela cidade e, no dia seguinte, ir buscar o drone e regressar a Santiago, no Chile. A Raquel tinha comprado curcuma fresca, em raíz, tipo gengibre, em Pucón, mas nunca mais nos lembrámos que a tínhamos. Desta vez, na fronteira de Los Libertadores, a Raquel foi parada pela curcuma. Apesar de ser chilena, saindo do país não pode reingressar, porque é uma planta. Os medicamentos da colite ulcerosa também devem ter feito fogo de artifício no raio-x, mas, felizmente, a funcionária tem uma patologia semelhante e percebeu logo o que era, tendo explicado às colegas que era um medicamento de uso diário, portanto necessário em grandes quantidades para a viagem. Ficámos entalados mais de uma hora por causa de umas senhoras que decidiram arriscar levar material para venda no Peru sem declarar. De cada vez que abriam malas saiam bonés de todas as cores.

A última saída do Chile foi para ir de São Pedro do Atacama para o Uyuni, na Bolívia. O carimbo de saída é feito ainda dentro da cidade de São Pedro, muito longe da fronteira. Junta-se imensa gente no edifício, justificando o início das tours ao Salar tão cedo. Depois regressa-se ao carro e segue-se para a fronteira da Bolívia, ficando essa parte para um post sobre a entrada e saída da Bolívia. A fronteira que utilizámos é Hito Cajon. Existe também uma alternativa por Calama, pelo posto fronteiriço de Ollagüe-Avaroa, mas por este caminho perdem-se imensos pontos de atração do tour do salar.

Notas:

  • PDI significa Policía de Investigaciones de Chile
  • O formulário é a tarjeta única migratória, é informatizado e identifica o posto fronteiriço de entrada e os vossos dados pessoais

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