Peculiaridades #2 – A Folha de Coca

No primeiro artigo sobre hábitos peculiares falámos do mate, “chá” bebido por argentinos, paraguaios, alguns brasileiros e alguns chilenos.

Encontrámos na Bolívia mais um hábito peculiar diferente dos nossos. Na Bolívia e Perú planta-se coca. Para além de plantar coca, são países que têm montanhas e cidades estabelecidas em altitude. A altitude pode dar mal-estar a quem não está habituado, desde dores de cabeça a dificuldades em respirar, e até sintomas mais graves, devido à falta de oxigénio. Nestes países pensa-se que a folha de coca ajuda a combater esse mal-estar, daí que os guias andem sempre acompanhados das folhas.

A folha é usada desde o tempo dos incas, porque é supressora da fome e da fadiga, permitindo viajar com menor quantidade de comida. Hoje em dia os nacionais usam-na como nós usamos as pastilhas ou rebuçados.

Quando falamos da coca, planta, estamos a falar da mesma coca que dá origem à cocaína, droga, mas aqui, em folha, é perfeitamente legal e sem qualquer conotação negativa.

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Os espanhóis levaram a folha para a Europa, onde durante muito tempo se extraiu e utilizou a cocaína sem se conhecerem os efeitos de dependência. A cocaína foi utilizada em vinhos, na coca-cola, como substituta da morfina, como medicamento, em tabaco e afins. A cocaína é um alcalóide existente na planta, que é extraído através da utilização de outros químicos, para depois ser vendida como droga, refinada (a versão não salina é o crack). A cocaína existente na folha mascada ou em infusão é mínima. Por isso, falar em consumo de cocaína através do consumo da folha é quase absurdo e o consumo de folhas não causa dependência.

A folha de coca utilizada tanto para mascar e em chá é a folha seca, sendo vendida já seca em saquinhos. Utiliza-se de várias formas:

  1. Mascar – colocar cerca de 8 a 10 folhas na boca, dizem que se podem usar até 20 folhas (há quem retire todo o caule, há quem as dobre). Deixá-las passear pela boca sem morder (se as morderem vão ficar com pedaços nas gengivas e entre os dentes difíceis de tirar). Vão sentir o sabor da folha misturado na saliva e aparentemente isso chega para fazer efeito;
  2. Mascar com um “catalisador” – mesma forma, mas acrescentar uma pasta preta (cinza de casca de cacau, pelo menos foi o que percebemos, mas também pode ser bicarbonato de sódio). Este catalisador vai ativar o efeito das folhas e pelos vistos dá um efeito de dormência na boca. A nossa experiência não foi a melhor, tendo um efeito mais “queimado” do que de dormência;
  3. Infusão – colocar as folhas numa chávena e acrescentar água fervida, tal como um chá;
  4. Outras aplicações – encontramos em rebuçados, cerveja, basicamente usam para tudo…

As folhas são vendidas em pequenas lojas ou na rua. Na Bolívia, Perú e Colômbia pode-se circular com dois quilos de folha dentro de cada país.

A plantação é legal e a sua origem é boliviana e peruana. O presidente da Bolívia e produtor de coca, Morales, conseguiu provar ao resto do mundo que plantar coca não tem nada a ver com ser produtor de cocaína, e conseguiu que a atividade fosse respeitada.

No Perú, os agricultores recebem muito pouco pelas pelas folhas, portanto disseram-nos que são aliciados pelos cartéis de droga para a venda para exportação. Não percebemos nada disto, mas pelo que nos explicaram no Inca Jungle Trek, o Perú não vende cocaína, vende apenas as folhas, teoria contrariada posteriormente na Colômbia, conforme lerão de seguida.

O consumo de cocaína dentro do Perú é baixo e não há violência associada ao narcotráfico. Aliás, na Bolívia e no Perú, como países mais tradicionais, são utilizados métodos alternativos de droga “natural”, mais próximos das raízes ancestrais destes países. Não sabemos se falaremos disso no blog, primeiro, porque não é do nosso interesse, segundo, porque não temos opinião formada sobre o assunto, apesar de estes métodos serem legais nos dois países.

Chegados à Colômbia recebemos outra versão da história. Que o Perú produz cocaína e já partilha o pódio com a Colômbia como um dos maiores produtores. Aparentemente, este ano a Colômbia é o maior produtor, tendo o ano passado sido o Peru. Na Walking Tour de Medellín ouvimos uma turista perguntar o porquê de não legalizar a atividade, pois haviam países onde era legal o consumo, como Portugal, e corria bem. Ficámos de queixo caído. Portugal? Percebemos que ela afinal queria dizer despenalização e mesmo assim sem estar muito informada sobre o assunto, demonstrando que há muita ignorância neste campo. Na nossa opinião, comparar países produtores com países consumidores não faz sentido, porque o problema é totalmente distinto. Depois, sendo o consumo ilegal, dificilmente se poderá legalizar a produção. E a Colômbia foi sinónimo de violência essencialmente devido ao narcotráfico e ao poder que este deu aos cartéis e guerrilhas. Portanto, acima de tudo, a Colômbia quer reduzir os eventos violentos associados à droga, sabendo que enquanto houver procura, vai existir gente que arrisca a produção.

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