Sobreviver à estrada da morte (Bolívia)

O slogan de quem desce a estrada em downhill é “eu sobrevivi à estrada da morte”. Durante muitos anos muita gente não sobreviveu. Foram anos e anos sem alternativa, com autocarros inteiros engolidos pelo precipício. Criada com uma única faixa de rodagem, nos anos 30, era utilizada tanto para transporte de mercadoria como de passageiros, em ambos os sentidos.

Oficialmente o nome da estrada é Calle Yungas, tem 64km de extensão, e por lá morriam cerca 300 pessoas por ano, o que levou ao batismo popular mundialmente conhecido de estrada da morte. O acidente mais dramático aconteceu em 1983, quando um autocarro caiu no precipício, matando mais de 100 pessoas.

A estrada une a cidade de La Paz, a 3640m de altitude, a Coroico, a 1200m, situada na região de Los Yongas, na floresta amazónica. Foi considerada em 1995, pelo Banco Interamericano de Desarollo, como a estrada mais perigosa do mundo.  É estreita, cheia de curvas apertadas, bastando um motorista arriscar um pouco mais para resvalar para o abismo. E são frequentes condições climatéricas adversas, como chuva e nevoeiro, descendo drasticamente a visibilidade.

Com a abertura da nova estrada, esta foi praticamente abandonada para tráfico de veículos motorizados, mantendo-se apenas para alguns trajetos de autocarros e moradores. Começou então a ser muito explorada pelo mercado dos tours turísticos de downhill. Os números de mortes baixaram, claro, mas ainda assim já morreram mais de duas dezenas de ciclistas nesta estrada desde 1998, sendo obrigatória precaução durante todo o trajeto.

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Como fazer o downhill?
Nós somos bastante exaustivos nas nossas análises, mas era assim que gostávamos de ter a informação quando investigámos. O único trabalho de casa que tínhamos conseguido fazer foi selecionar algumas empresas que queríamos contatar quando chegássemos a La Paz. Porque o Tiago tinha amigos que já tinham feito o tour sabíamos que era seguro, desde que as regras fossem cumpridas.

As principais empresas são: Xtreme Down Hill, Gravity e Barracuda Biking Company. Todas têm ótimas críticas no Tripadvisor, dão equipamentos de proteção e bicicletas de qualidade, mas quanto mais pagarem melhor suspensão terão, funcionando com diferentes classes dentro de cada empresa. A única que difere um pouco no programa em si é a Gravity, que inclui uma paragem num parque nacional para ver animais, pago à parte, o que a torna significativamente mais cara.

Nós acabámos por escolher a Xtreme Down Hill e adorámos. Optamos pelas bicicletas de gama média, com suspensão total e travões hidráulicos. Os equipamentos de proteção eram completos, incluindo casaco, calças, joelheiras, cotoveleiras, capacete com suporte para GoPro e luvas. Quando reservámos o tour experimentámos o equipamento para escolher o nosso tamanho e tudo bateu certo, inclusive a altura da bicicleta.

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Foram-nos buscar cedo ao hostel, para chegarmos ao topo, La Cumbre, a 4650m, a tempo de tomar o pequeno-almoço, incluído, e fazer um briefing. Na carrinha seguiam todas as bicicletas, equipamento, dois guias e o motorista. O guia começa a explicar as regras e diz que nunca pode ultrapassado. Ele segue em boa velocidade, por isso ninguém, por mais experiência que tenha, o deve ultrapassar. Ninguém pode seguir lado a lado, sempre em fila indiana. Também diz que cada um de nós pode seguir à sua velocidade, sem pressa, porque há outro guia que segue no fim do grupo, tirando fotos e controlando os últimos elementos da descida. A carrinha segue mais atrás e a qualquer altura pode-se pedir para seguir na carrinha. Também informa os cuidados nas travagens para não derrapar ou fazer “éguas”. Mesmo assim, no nosso tour houve duas quedas caricatas (naquela fase de quase parados).

É ainda durante a viagem de autocarro que se recebe o termo de responsabilidade, que como sempre, diz que a responsabilidade pelo equipamento fornecido é nossa e retira grande parte da responsabilidade pela nossa segurança à empresa.

A primeira paragem começa com o pequeno-almoço, simples, mas suficiente. A seguir equipamo-nos e testamos as bicicletas. Arrancamos, a parte inicial do percurso é feito em estrada asfaltada, e quando nos deparamos com uma subida, ao contrário de algumas empresas mais baratas, não somos obrigados a pedalar. Voltamos todos à carrinha, as bicicletas são todas postas em cima da carrinha, e temos o primeiro snack, uma barra de chocolate. A água também está incluída, uma garrafa por pessoa, que vai na carrinha, para termos as mãos livres para manobrar a bicicleta.

Viramos à direita, o asfalto acaba, e começa a estrada da morte, a death road.

A Raquel ia cheia de medo, quem a conhece sabe que ela vive feliz com a adrenalina nos níveis mínimos. Não foi a última, mas quase. Andou à velocidade que quis para se sentir segura e nunca se sentiu pressionada para desistir ou acelerar.

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Fazem-se várias paragens para tirar fotos, para ver se estamos todos bem ou se alguém tem alguma queixa da bicicleta. Também serve para despir agasalhos e beber água, porque o dia vai aquecendo à medida que se desce, com uma maravilhosa transição do clima gelado de altitude para o calor húmido da floresta tropical. Fomos num dia nublado, o que por um lado ajuda, não permitindo ver o precipício, mas por outro lado tira grande parte da vista. Ainda assim, sente-se a humidade e a temperatura aumentarem quando entramos na floresta amazónica. Até os cheiros mudam, sentindo-se o aroma de noz moscada e terra molhada.

A maior paragem para lanchar é feita num espaço com quarto de banho, onde recebemos sandes e frutas. Existe também uma zipline para quem quiser uma dose extra radical, descendo parte da montanha e regressando de carro. Para quem, como nós, pretende passar também na Costa Rica, não vale a pena, mas de qualquer forma não é caro. Aqui cruzamo-nos com outras empresas e percebemos que o barato sai caro. A diferença é visível, seja nos equipamentos, na quantidade de guias, ou na ausência de lanche.

Tivemos a sorte de não nos cruzarmos com nenhum veículo durante todo o percurso, só nós e outros tours. Mas a estrada continua em funcionamento, como já referimos acima, portanto pode acontecer. Até há quem nos tenha dito que fez a estrada duas vezes de autocarro, num tour, e que foi assustador.

Quando o tour termina há uma agradável sensação de alívio e de superação. Algo dormentes das cerca de 3 horas de descida, doridos nos pulsos, tiramos todos os equipamentos, percebemos que estamos cheios de lama, e entramos na carrinha em direção ao merecido almoço.

Fomos o primeiro grupo a chegar ao restaurante. É um espaço com piscina e almoço buffet “all you can eat”. É-nos dada uma toalha e champô e há chuveiros disponíveis (água fria) para tomar banho e trocar a roupa suada e cheia de lama por roupa seca e limpa. Todos estes serviços estão incluídos no tour. O almoço é variado, com massas, sopa, frango, peixe, legumes e arroz. As bebidas são à parte, mas ainda tínhamos água da garrafa que recebemos no início do percurso.

No final do almoço têm tempo para relaxar na piscina e antes da viagem de regresso o guia distribui as t-shirts que dizem que somos os maiores porque sobrevivemos à estrada da morte. As fotos que nos foram tiradas durante a descida são-nos dadas na agência em CD e/ou pen drive à chegada a La Paz. O regresso é demorado pelo trânsito, chuva e pela forma doida como se conduz na Bolívia.

Valeu cada segundo. Não foi demasiado difícil nem demasiado extenuante. Deu gozo tanto à Raquel como ao Tiago, cada um seguindo na velocidade e emoção que bem entendeu.

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O que levar:

  • Vestuário apropriado – calças “desportivas” ou leggings, t-shirt, camisola, casaco impermeável, gorro ou lenço e óculos de sol;
  • Sapatilhas/ténis sem mágoas por se sujarem ou botas de trekking impermeáveis;
  • Roupa extra completa para depois banho;
  • Opcional: outro par de calçado, porque os outros vão estar molhados;
  • GoPro;
  • Chinelos;
  • Papel higiénico;
  • Pen-drive para as fotos e vídeos da empresa (se receber em formato CD for um problema)

O que é fornecido, incluído no preço do tour:

  • Garrafa de água;
  • Snacks;
  • Lanche (meio da manhã);
  • Almoço;
  • Toalha;
  • Champô;
  • Cotoveleiras;
  • Joelheiras;
  • Calças;
  • Casaco;
  • Luvas;
  • Capacete;
  • Bicicleta;
  • CD com fotografias e vídeos;
  • T-shirt souvenir alusiva

Preço: 510 BOB (63€)
Duração: todo o dia
Grau de dificuldade: fácil (sabendo andar de bicicleta)
Nível de segurança: total (com precaução/consciência)
Satisfação: muito satisfeitos

365 dias no mundo estiveram 2 dias em La Paz, de 26 a 27 de Abril de 2017

Mais em La Paz: La Paz – O reino das alturas

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