O balanço e um baloiço

Há sete meses iniciávamos a viagem, no dia 8 de fevereiro, uma sexta-feira. Não começou de forma luxuosa, mas quem quer contar que logo no primeiro dia o voo atrasou e a companhia área era terrível? Durante os cinco meses seguintes houve dias maus, alguns partilhados, como o dia em que atolámos na lama (ler aqui), e muitos outros que não foram contados. Quem nunca se sentiu ridículo ao pensar no drama que fez sobre um assunto que não tem volta a dar, ou que até nem é assim tão mau revivido passado umas horas? Na maioria as coisas correram bem, com pequenas tempestades em copos de água, tal como um dia-a-dia “normal”.

Há dois meses voltámos, dia 8, também uma sexta-feira. Alguns de vocês nem perceberam, porque continuamos atrasados na partilha da viagem e ainda temos tanto para contar.  Tenho lido alguns títulos de artigos de redes sociais que dizem algo do género “Como não ter depressão pós-viagem?”, “É possível voltar a ter uma vida normal?”. Parece que quem viaja é um extraterrestre, diferente, que tem uma vida anormal. Muda-se após uma viagem? Muda-se! Muda-se ao ponto de ser uma pessoa completamente diferente? Nós achamos que não. Claro, há coisas em nós que mudam, mas depende do quanto viviam numa redoma. Extremos de pobreza ou de riqueza, hábitos e comidas diferentes, crianças, paisagens de cortar a respiração, tudo isso existe em todo o lado. Não pensamos que a esse nível a viagem tenha sido um choque.

O que mudou em mim? Perceber que podia fazer disto vida ou profissão (como preferirem), perceber que apesar de adorar a minha profissão, era capaz de a trocar por uma vida no mundo. Perceber que ouvir falar português no mais recôndito lugar do mundo muda tudo, o coração aquece, o cérebro não quer saber quem é aquela pessoa, só sente uma empatia imediata. Perceber que por muito que se viaje vai-se sempre saber de algo espetacular que ficou por conhecer e morrer de inveja de não ter sabido antes. Perceber que o preço não é sinónimo de qualidade e que existirão momentos em que vamos ser enganados pelos serviços recebidos. Mas nunca pela natureza!

Temos depressão pós-regresso? Não, e sabemos que juntos pensamos sempre no que é melhor para a nossa equipa de dois. Já falei nisto com pessoas que me são próximas, nós não fazíamos ideia do quão graves os furacões iriam ser, mas os dias de chuva que apanhámos (chuva normal tropical) fizeram-nos pensar duas vezes sobre as nossas expetativas para o que restava da viagem. Para nós enquanto casal fez mais sentido vir para Portugal aproveitar o verão e repensar a continuação da viagem. Podíamos ter seguido para a Ásia, felizmente não o fizemos, neste momento poderíamos estar no Japão, China ou Coreia. Se tivéssemos prolongado a estadia na América poderíamos estar no México, onde estivemos quase a fazer um voluntariado próximo do local do terramoto da madrugada do dia 8.  Mesmo que as nossas decisões se tomem por razões que nada tenham a ver com o previsto, o tempo mostra que decidimos bem.

O que quero frisar é que a viagem foi uma experiência fantástica, e continuaria a ser, mas não perfeita. A vida é como um baloiço, não estamos sempre felizes, nem sempre infelizes, vamos aos extremos, mas passamos principalmente por momentos que se encontram no meio dos dois estados. Não fomos sempre felizes na viagem, houve imprevistos, um dos cartões foi clonado, atolámos na lama, discutimos um com o outro por não chegar a acordo, quase fomos muito enganados por um taxista, saltámos refeições por falta de organização, demos mais gorjetas do que queríamos. Regressar foi nostálgico, mas agradável, tivemos muita gente que nos quis mimar e dar-nos um pouco do que não tivemos nos últimos 5 meses, como estadias em bons turismos rurais ou em casas de amigos, boas refeições, sobremesas, beijinhos e abraços. Levaram-nos para sítios que ainda não conhecíamos, convidaram-nos para festas. Nunca foi deprimente, não voltámos a trabalhar, o que nos dá tempo para conhecer o que nos rodeia, para festejar pequenos momentos com os nossos, como os meus 32 anos numa festa em casa, como já não tinha há muito tempo. Ou os nossos dois anos de casados “festejados” sem preocupações. Podemos dizer nesta altura que temos saudades de trabalhar, principalmente daquela coisa fantástica que acompanha um emprego chamada salário, mas não estamos ansiosos com esse momento.

Sabemos que a viajar ou “parados” somos os mesmos, duas pessoas com uma vida normal, um casamento normal, não somos especiais, não somos uns grandes malucos, não somos milionários. Somos apenas duas pessoas que perceberam que meio ano, um ano, três anos, ou o que cada um quiser, passados a seguir um sonho nunca é tempo desperdiçado. E que a vida espera…

Este texto é claramente escrito e sentido pela Raquel

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