Peculiaridades #3 – Viajar com o xamã

Há áreas que de todo não dominamos… Esta é uma delas, não temos grande interesse em fazer “viagens” no mundo dos alucinogénicos. Apesar disso, vamos falar destas ervas especiais por uma razão muito simples, é uma atividade cultural e uma particularidade da região, neste caso Perú e Bolívia.

Há países que tradicionalmente mantêm uma relação muito estreita com a medicina natural. Têm conhecimentos sobre ervas, curas e, às vezes, algumas superstições associadas. Falando daquilo que já conhecíamos, São Tomé e Principe é um país em que a medicina tradicional tem um papel muito importante. Tem sido estudada por Faculdades e sabe-se hoje que funciona, é curativa, utilizando os mesmos princípios ativos dos medicamentos, mas na sua forma natural. Angola, pelo contrário, tem muita bruxaria associada a superstições, não comprovadas, e que para uma cultura europeia seriam consideradas absurdas. O Perú e a Bolívia têm ambas as vertentes, medicina tradicional, que cura ou alivia sintomas, como a utilização de folhas de coca, e superstições, algumas com origem na cultura inca, que prevalecem até hoje.

E o que é um xamã? Pode ser um feiticeiro, um curandeiro, um mestre, depende das crenças de quem tenta definir. Acredita na força e poder da natureza, conhece as plantas e seus efeitos, faz rituais com diversos fins, invoca espíritos, tem visões, ensina… A lista poderia continuar indefinidamente.

Originalmente, usariam os seus poderes apenas dentro da sua comunidade, mas os países abriram-se a turistas, a outras culturas, outras tecnologias, e os xamãs adaptaram-se. Hoje em dia, fazem rituais a estrangeiros mediante pagamento, recebem voluntários através de plataformas de voluntariado em troca de estadia e alimentação, e apresentam a sua cultura a curiosos. Há turistas que acham fascinante a cultura do xamã, os seus conhecimentos, a noção de divindade e os seus poderes. Tornou-se uma atração pagar para participar num ritual xamânico, principalmente os que utilizam ayahuasca.

Ayahuasca, a bebida do morto ou dos espíritos, faz-se combinando duas ervas em infusão. Exige uma rigorosa dieta alimentar nos dias anteriores, que se não for cumprida compromete o efeito da bebida, dizem os xamãs. Quem participou nos rituais conta experiências de todo o espectro: há quem não tenha sentido efeito nenhum, há quem tenha chorado em pânico, há quem tenha tido apenas vómitos e diarreias, há quem tenha tido uma experiência extra-sensorial.

Após a ingestão da bebida segue-se o ritual com orações, frases, músicas, que é utilizado para intensificar os sentidos. Os sintomas fisiológicos, que fazem parte, servem para limpar o espírito, para purgar. Os efeitos duram de 2 a 3 horas, mas dizem que o estado de tranquilidade pode durar dias. Para os que acreditam, o ritual introduz um equilíbrio ao espírito, purificando-o.  Um guia, em Lima, contou-nos que teve visões que o deixaram desconfortável, levando-o a um choro compulsivo. Contou-nos também que há muitos rituais falsos para turistas, dando apenas laxantes e culpando o utilizador de não ter feito a devida preparação. Conhecemos dois amigos que participaram num ritual. Aparentemente tiveram os necessários efeitos fisiológicos para purgar e alguns ataques de riso ou de choro.

Porque falamos nisto? Porque a mistura e os seus efeitos foram estudados cientificamente, tal como os métodos médicos naturais de São Tomé. Para terem uma melhor noção, sugerimos que assistam ao documentário que se encontra na Netflix – DMT: The Spirit Molecule. Basicamente, DMT, Dimetiltriptamina, é um alucinogénico de base natural, que se encontra em algumas plantas, as tais da ayahuasca. As teorias associadas a esta molécula são vastas, principalmente pelo facto de esta ser sintetizada naturalmente pelo ser humano, mas não se sabendo exatamente a sua função. Utilizada de forma alucinogénica, “crê-se” que aumenta a percepção do indivíduo, cria um auto-conhecimento, abrindo o espírito ao divino. Sugerimos que vejam o documentário com mente aberta. Será, no mínimo, um tema cativante.

Como experiência na região não nos trouxe a mínima curiosidade. Não somos adeptos do oculto, e muito menos de nos sujeitarmos a bebidas cuja segurança desconhecemos. Também não somos adeptos de nos colocarmos “a jeito” para burlas. O certo é que isto existe, os rituais são vendidos em tours (uma viagem de 12 dias ao caminho xamânico pode custar 1600 USD) e as plantas possuem efeitos cientificamente estudados. Pensámos se valeria a pena falar nisto ou não, não sendo adeptos, mas o certo é que é uma particularidade cultural. Dizem que há turistas que vão aos mercados comprar as ervas, fazem a mistura e a sua toma sozinhos, o que pode ser uma decisão pouco sensata. O facto é que nestas regiões a toma de ayahuasca é legal e não está associada a casos de dependência.

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