QUANDO JÁ NÃO SENTES BORBOLETAS

ou ENTRAR E SAIR DA NICARÁGUA

Há uma música que tem um verso que diz “O que é que sentes? Borboletas”, e assim descrevemos o amor. O amor é sentir borboletas dentro da barriga, aquela sensação de que algo se move ali, entre estômago, rins e fígado, que tem tanto de assustador como de agradável.

Viajar traz uma sensação semelhante. O medo dá arrepios, mas a alegria de saber que se vai chegar a algo desconhecido provoca um sorriso nos lábios, daqueles parvos que não passam. Não somos todos iguais, há quem goste de viajar devagar, dormir um mês nos sítios baratos, conhecer gente porreira e ficar a aprofundar amizades durante semanas. Há quem ache que mais do que três dias num sítio já é demais. Nós, nesta viagem, fomos mais do último tipo. Não ficámos semanas num sítio porque não estivemos à procura de poiso. Não temos a pretensão de nos sentir em casa, nós temos casa. Mas, ao mesmo tempo, não sabemos o que é ter casa, porque não é importante, porque já trocámos de casa mais de meia dúzia de vezes.

Esta introdução serve para dizer que ficámos cansados, abre mochila, espalha coisas, dorme, arruma coisas, fecha mochilas, vai até ao terminal, apanha autocarro, troca de cidade, e sempre assim.

Já não existiam dias sem chuva. Ficámos encharcados, apanhados de surpresa no meio de uma tempestade que não previmos, fizemos muito menos coisas porque com chuva os planos têm de ser alterados. Podíamos continuar a subir a américa central, chegar até ao México na esperança do sol voltar e, mesmo que não voltasse, não fazia mal, podíamos sempre dedicar-nos a fazer mergulho sem nos importar com o que se passa fora de água. Somos felizes a ver golfinhos, leões marinhos, estrelas do mar, corais e peixes coloridos, que pintam o oceano com as suas cores. Mas somos ativos, gostamos de fazer, de ver, de ficar assoberbados pela paisagem. De olhar para cima, frente, lados e dizer “uau”. E este sentimento estava a desvanecer. Muita gente não compreende o que queremos dizer, mas outros sentem exatamente o mesmo.

Já nos parecia um bocadinho mais do mesmo: a língua, os pratos, arroz, feijão, banana, frango. E não é assim tão barato como nos venderam. E a arquitetura que sobreviveu a terramotos é semelhante entre países colonizados por espanhóis.

Adorámos o que fizemos até aqui. Respeitamos muito, mas muito, as culturas que conhecemos nestes cinco meses. E é por respeitarmos a individualidade de cada um destes países que não queremos conhecê-los como apenas mais um, parecido com aquele outro. E por isso parámos. Sentimos que já não nos deslumbrávamos, já olhávamos de lado para as cozinhas “bagunçadas”, já não disfarçávamos o incómodo de ser atendidos por donos de hostels que não faziam a mínima ideia do que é gerir um estabelecimento comercial.

Foi isto que sentimos na Nicarágua, aliás, na passagem da Costa Rica para Nicarágua. Fomos deixados numa fronteira (Peñas Blancas), hora e meia antes do horário de abertura (quase duas horas se considerarmos o atraso), numa caminhada de vinte minutos que se torna perigosa se ficarmos para trás e nos afastarmos do ritmo do grupo. Felizmente, até agora, escapámos de terramotos (Chile), bombas (Colômbia), naufrágio de barcos de turismo (Colômbia) e a assaltos. Uma nicaraguense foi assaltada enquanto caminhava minutos atrás de nós. Ficou sem passaporte numa fronteira. Já imaginaram o pesadelo? Aquilo que na nossa cabeça formatada na Europa não tem cabimento, para aquelas mais de 100 pessoas que nos rodeiam é normal. É normal que a polícia não controle uma zona de assaltos, é normal o autocarro descarregar os passageiros bastante antes da hora, o motorista trancar o autocarro e ficar a dormir até à hora de partir. É normal a prioridade ser dada à família com crianças que acabou de chegar no último autocarro, enquanto todos os outros passageiros sem prioridade do primeiro autocarro continuam na fila, à espera. Se a nós parece lógico que deveriam despachar autocarro por autocarro, aqui não, a fronteira da Costa Rica acha que deve priorizar aquela mãe com uma criança ao colo, mesmo que a seguir ela espere duas horas pelos seus restantes companheiros de viagem. Já em Angola tínhamos aprendido que não se muda quem não quer mudar. A história, a cultura e o hábito definem a forma de fazer as coisas. Não se pode ter a ilusão de que vamos mudar o mundo. Podemos mudar uma pessoa de cada vez, mas não mudamos um país. Uma viagem só faz sentido se soubermos que o que para nós é absurdo, para outros é a forma natural de fazer as coisas. Disseram muitas vezes à Raquel, em Angola, “em Roma sê romano”. Se não conseguirem ter jogo de cintura para lidar com as particularidades de cada sítio têm aí um grande problema. Não pensem que a vossa forma é a mais correta de fazer as coisas. Às vezes não é. Quem diz que o stress que vivemos diariamente nas correrias de casa para o trabalho e do trabalho para casa é o correto? Quem sabe se o normal não é viver a pura vida (expressão da Costa Rica) e esquecer o stress que nos mói e nos mata aos poucos?

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Bem, com esta técnica de passar a fronteira demorámos 4 horas. 4 horas sem dormir, em pé, a ver o sol nascer (positivo), a ouvir os macacos do outro lado da cerca a reclamarem (positivo), a ver as pessoas deitadas no chão a tentarem dormir, agarradas às almofadas e cobertas com as mantas que trouxeram. O dia amanhece e finalmente as casas de banho são abertas. São grátis e é preciso ignorar o aspecto. Continuamos na fila e vemos dezenas (sim, dezenas) de pessoas passando à frente, com todo o tipo de desculpas. Quando chega a nossa vez é super rápido. Bastou entregar os papéis preenchidos, um por pessoa, o carimbo é imediato, sem grandes questões.

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Regressados ao autocarro, falta a próxima fronteira, a entrada na Nicarágua. Começa por entrar uma funcionária que vem ver todos os passaportes, de seguida o motorista percorre o autocarrro para recolher os passaportes, coisa que não nos agrada, mas sê romano, lembram-se? Retiramos as nossas mochilas e seguimos para o raio-x, para verem se afinal temos algo que não escrevemos na declaração que o motorista recolheu. Os passaportes são-nos entregues à porta do autocarro por uma funcionária que torna a conferir as identidades. Uma coisa devemos dizer: não tentem ser engraçados com funcionários da migração. É a pessoa que está à nossa frente, com o nosso passaporte na mão, quem decide se entramos ou não no seu país. Como se costuma dizer: tem a faca e o queijo na mão. Dizemos isto porque vimos um engraçado a colocar o método em causa e não correu bem, a funcionária não achou piada.

Lemos blogues que falam de taxas de saída da Costa Rica (8 USD = 7 USD de taxa de saída + 1 USD de comissão) e de entrada na Nicarágua (13 USD = 12 USD de taxa de entrada + 1 USD de taxa municipal). Não nos lembramos de pagar a entrada na Nicarágua e a saída da Costa Rica foi cobrada juntamente com o bilhete de autocarro, porque fizemos viagem única. Se calhar estamos enganados, já foi há tanto tempo e já estávamos cansados, portanto se calhar pagámos, mas não apontámos. Mas temos a certeza que só passámos com as malas no raio-x e não falámos com nenhum funcionário.

Se sentimos borboletas quando pusemos o pé na Nicarágua? Confessamos que não. Tentámos aproveitar ao máximo Manágua, mas não sentimos borboletas. Leiam o post sobre a cidade e vão perceber porquê. Conhecemos quem tenha adorado o país, porque ignorou a capital e seguiu para os vulcões ou para a costa. Nós já não tínhamos tempo para tanto.

Para sair da cidade para o aeroporto há um autocarro de 15 em 15 minutos (autocarro/ônibus 266 das 5h às 20h), mas nós fomos de táxi, porque o voo era à noite. Lemos também que se paga 2 USD para sair do país, mas, mais uma vez, não nos lembramos de ter pago. O check-in foi fácil, e como tínhamos o ESTA para entrar nos EUA ainda válido, foi tudo calmo, só apontámos os dados para o caso de alguém nos pedir à chegada a Miami.

Isto foi a nossa curtinha estadia na Nicarágua. Recomendamos que caso visitem o país não percam muito tempo em Manágua e sigam para outros destinos mais apelativos que o país tem.

 

 

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