OS TRÊS C’S: CACAU, CAFÉ E CALOR (SÃO TOMÉ E PRINCIPE)

O nosso conhecimento de África é limitado. O país que melhor conhecemos é Angola, onde vivemos quase 5 anos e conhecemos diversas províncias: Luanda, Lubango, Benguela, Kwanza Norte e Sul, Huambo, Namibe, um de nós conheceu o Zaire e o outro a Lunda Sul e Moxico. Além disso, o Tiago já passou por Marrocos e a Raquel foi à Tunísia. Juntos, fomos à África do Sul e a São Tomé e Príncipe, o destino do nosso relato de viagem, por onde passámos no final de 2016.

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São Tomé era um destino que tínhamos na nossa lista mental, mas foi sendo adiado. De cada vez que alguém voltava de férias ouvíamos como era fantástico: o clima, a paisagem, a comida e, principalmente, as pessoas. Um dia falaremos disto, mas somos fãs de programas de milhas (mais a Raquel). Quando decidimos que o nosso objetivo de vida quando saíssemos de Angola era viajar a longo prazo, mudámos de estilo de vida,  reduzimos os gastos, mas continuámos a querer aproveitar para viajar, principalmente para destinos mais próximos de Angola. Então, a Raquel foi à TAAG Linhas Aéreas de Angola, e descobriu que tínhamos milhas suficientes para ir até São Tomé.

Com a premissa de não tentar gastar euros que eram essenciais para os planos a longo prazo, acabámos por ter de deixar a ilha do Príncipe fora dos planos. Mas sabemos que um dia vamos voltar por aquilo que não conseguimos visitar nesta viagem e rever aquilo que adorámos. Na ilha de São Tomé, tentámos conhecer o máximo possível e fizemos as três rotas (Norte, Centro e Sul) em jipe alugado, com um guia e motorista local (o Arcelino). Há tanto para contar e relembrar que sabemos que vamos falar da ilha durante alguns posts, mas neste queremos apenas realçar aquilo que é realmente especial ali, aquilo que distingue este país. E aguçar o vosso apetite para não perderem o resto.

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Em São Tomé, a língua portuguesa é falada de uma forma mais semelhante com a portuguesa do que em Angola. Aliás, sente-se a amizade e colaboração entre Portugal e STP. Sente-se África, é húmido, cheira a floresta e a fruta, a canela e baunilha. São Tomé é rosália e santola. É mar e mato, é café e cacau. São roças abandonadas e roças recuperadas. Crianças que vão a pé para a escola, que pedem doces e cadernos. É catanas e remos, memórias e histórias. É mercado e vendedores de rua.

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Pode ser um choque para quem apenas conhece a Europa. Aquilo que muitos chamam de pouco, de pobreza, para quem conhece África, não se esquece a felicidade, a música. Aqui, partilha-se a necessidade e ambição de uma vida melhor, mas não há fome. A fruta e o peixe abundam. Os cocos são de todos e a matabala não falta à mesa. Vêem-se as marcas daquilo que já foi, das grandes roças, dos fornos, dos carris que transportavam as sementes numa era que não voltou, mas não há ressentimento.

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Há gente famosa, como o artista e escritor Almada Negreiros, em Trindade, e o chef João Carlos Silva, em São João de Angolares. Se um está morto, o outro vive e dá vida à culinária nacional. O conhecimento da medicina tradicional existe, não é vendido como banha da cobra, ou feitiçaria, é comprovado e faz sentido. As pessoas conhecem o que as rodeia. As que se lembram, contam como era no tempo em que o senhor da roça lá estava. Mostram onde era a casa dos senhores, onde morava o capataz, onde dormiam os funcionários (que começaram por ser escravos), a escola e o hospital. Dizem como chegava o cacau ou o café até aos depósitos. Falam no Claudio Corallo, o italiano que tem uma fábrica de chocolate em São Tomé e distribuidores da sua marca em todo o mundo. Levam-nos às enormes santolas, lá mesmo no meio do bairro, onde nos contam que muitos desistem da iguaria ao perceber o enquadramento do restaurante. Falam com orgulho do Ilhéu das Rolas e do marco do Equador.

Há tartarugas, baleias e golfinhos. Têm associações e fundações que educam e protegem estes animais, para que não sejam caçados. E há um clima especial: húmido, quente, tanto está sol como chove torrencialmente, três ou quatro vezes no mesmo dia. A pele fica pegajosa, os mosquitos devoram-nos, e parece não haver repelente que os afugente.

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Mas nada disto interessa sem as pessoas, que dançam junto à praia na cidade, que caminham para o trabalho, que, com a catana, tanto abrem o cacau para experimentarmos a polpa, como o mato que esconde o caminho até à cascata. Que nos contam os seus sonhos, que nos pedem material escolar, que aceitam trocas, o seu artesanato pelos nossos produtos europeus. Juntam-nos a outros visitantes e fazem-nos meter conversa com estranhos, enquanto os guias põem a sua conversa em dia. Explicam, por experiência, de onde se tiram as melhores fotografias. As crianças acenam adeus enquanto seguem para a escola, tentam receber mais canetas escondendo a que já têm na mão, não por maldade, mas por necessidade. Encontramos os que chegaram e não mais se foram. Que explicam porque se renderam, como um dia sentiram que era ali que podiam ser felizes. E sentimos o bichinho crescer em nós. Sentimos que também nós podemos ser felizes ali, olhamos em volta e visualizamos o que poderia ser, sonhamos, antecipamos um futuro em São Tomé. Mais tarde, acabamos por saber que a loucura não é só nossa. Que outros, ao nosso desejo de comprar uma roça, nos respondem, “já o fiz”.

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