A ARTE DE DESTILAR ÓDIO NA INTERNET

Sabemos que o ser humano não é perfeito e que funciona como um espelho. É natural que quando são maus connosco respondamos na mesma moeda. É natural, mas pode ser controlado. Neste momento assiste-se a um fenómeno assustador nas redes sociais: a arte de ser mau só porque sim, porque é acessível e porque a resposta não chega. Perdemos o filtro, o medo e a educação.

É demasiado habitual percorrer um blog ou uma notícia até chegar aos comentários e encontrar uma inundação de mensagens de ódio. Vai do “pareces uma baleia” até ao “qual é a necessidade de te expores?”, porque amamenta em público, ou mesmo um “só queres aparecer” porque decidiu doar roupas, ou, quando está muito magra, leva com um “está esquelética, parece doente”. A lista de exemplos continua indefinidamente, vamos só enumerar mais alguns:

  • porque diz que trabalha, mas “desde quando é que escrever pode ser chamado de trabalho?”
  • porque se separou e devia contar aos seguidores o motivo, porque “quem tem um blog não tem vida privada, deves isso a quem te segue, já que somos nós que te fazemos ganhar dinheiro”
  • porque a pessoa é estúpida, porque aquele político é um incompetente, porque o jornalista não sabe escrever, ou investigar, etc.

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Vai daí, os “haters” desejam a morte, violação, oferecem murros e pontapés, chamam atrasados aos filhos de quem lêem. O que mais assusta neste fenómeno é que é praticado por pessoas (aparentemente) normais, trabalhadores, colegas, vizinhos, pais dos nossos amigos, os nossos amigos, ou os nossos familiares, que um dia nos surpreendem com uma atitude destas. Pensamos “Oi? Que aconteceu? Desde quando é que esta pessoa é assim?”

Conhecemos vários casos de pessoas que tiveram de bloquear um amigo no Facebook porque ficavam assustados com o bicho que essa pessoa era em frente a um computador, dentro de quatro paredes, quando aparentemente ninguém vê, por sentir que não há responsabilidade e identidade, porque não há consequências. Ainda há quem ache que é só e apenas uso da liberdade de expressão, aquele direito conquistado com muita luta e certamente não para este fim.

Vamos contar-vos um exemplo: li (Raquel) na primeira semana de janeiro um artigo sobre uma viajante a solo, mulher, assaltada em Vilcabamba, no Equador. Foi agredida ferozmente porque não conseguiu dar a mochila aos assaltantes no tempo considerado aceitável. Os dois criminosos não perceberam que enquanto a mochila estivesse presa a elas pelas fivelas, não saía, então decidiram empurrar a viajante pela ravina abaixo, para ela aprender a cooperar. Ela fala de golpes com navalha, pontapés na cabeça, etc, e mostra fotos das feridas. Os comentários e acusações eram de todo o tipo, de esta se ter colocado a jeito, de exagero, porque se tivesse caído numa ravina teria que estar mais ferida, de mentir nos golpes de navalha, porque as feridas não pareciam ser profundas nas fotos, de escolher mal o destino, de querer aparecer, etc. Isto choca-nos! Mais do que o ato de violência a que esta mulher foi sujeita, choca-nos o julgamento popular. A quantidade de pessoas que tenta culpar a vítima é assustadora. Sabemos que há destinos e destinos, sabemos que uma mulher sozinha, infelizmente, corre mais riscos do que um homem, porque a sociedade ainda é maioritariamente machista, mas os criminosos são os assaltantes! E sabemos, por experiência própria por quem nos cruzamos, que as viajantes femininas sozinhas não descuram a sua segurança individual, não é algo que desprezem, mas o desejo de conhecer o mundo é maior, e não é a falta de companhia que as trava.

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Assistimos em Cusco, no dia em que começámos o Inca Jungle Trek, a uma cena deprimente. À porta do nosso hostel, um táxi devolveu uma turista a amanhecer, bêbada, chorosa, e acompanhada de um rapaz. A rapariga chorava, tinha pulseira do hostel, fugia do rapaz que a abraçava, e o segurança nada fez. O taxista continuava a buzinar, à espera que alguém a fosse buscar, e eu senti-me num episódio de “E se fosse consigo?”, naquela dualidade de “faço ou não faço alguma coisa? Se faço, faço o quê?” Na cabeça do segurança, se ela está bêbada, o problema não é dele. Viemos a perceber que a rapariga perdeu-se das pessoas com quem saiu, lá acabou arrastada para um táxi por um rapaz cheio de boas intenções (#sóquenao), e foi o motorista do táxi, que achando a situação suspeita, decidiu entregá-la no hostel, antes que fosse atacada. São estas pessoas, como aquele segurança, que lendo uma história destas na internet, vão dizer que a culpa é da mulher, que não devia ter bebido, que não devia ter saído à noite sozinha, porque a mulher não se pode colocar a jeito. Como se fosse normal um homem se achar no direito de atacar uma mulher embriagada, perdida e sozinha. Como se fosse o mesmo que encontrar uma carteira perdida na rua e abrir para ver se tem dinheiro e guardar o que tiver (já agora, atitude feia também).

Vamos tentar ser mais humanos? Vamos ligar novamente o filtro? Vamos elogiar mais? Se aquele blog não vos agrada não o sigam, mas não o escolham para extravasar as frustrações do dia. Vamos parar de medir os outros pela nossa bitola, de julgar. A vida é tão curta e pode ser tão boa, para quê perder tempo a criticar, a dizer ou escrever coisas pouco simpáticas através de um ecrã? Eu (Raquel), penso duas vezes antes de escrever a primeira coisa que vem à cabeça, antes de carregar no publicar leio novamente, e mesmo assim falho muitas vezes.

Devemos rodear-nos de pessoas que trazem coisas boas, bons pensamentos, boas ideias, bons momentos, boas risadas. A crítica deve existir de forma construtiva, não tóxica. Lembram-se da frase em cima? Funcionamos naturalmente em espelho, mas podemos contrariar este instinto. Incentivar a que se reflita apenas o lado que queremos, escolhendo bem o ambiente que nos rodeia. Quanto mais felizes formos, menos o que vem de fora nos afecta.

 

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Nota: para quem estiver curioso com a história da viajante assaltada, após divulgar a história nas redes sociais, o caso tomou umas proporções gigantescas e um dos assaltantes foi preso. É importante referir que foi Andrea, a viajante, quem fez um trabalho de pesquisa para conseguir perceber a identidade dos assaltantes. Diz que recebeu todo o apoio do turismo equatoriano, mas que lhe pediram para não divulgar uma história tão sensível. Ao sentir que não estava a ser devidamente acompanhada, expôs o caso nas redes sociais e tudo andou. Deu várias entrevistas sobre o assunto, como esta. Uma mulher de armas!

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