BORA LÁ?!

Já falámos como organizamos as nossas viagens, já contámos como foi voltar, também já falámos do que levámos nas mochilas e do que sentíamos falta a meio da viagem.

No entanto, as pessoas que vamos conhecendo continuam a surpreender-se com a nossa história, continuam a perguntar como e porquê? E nós dizemos, todas as vezes contamos. Contamos que a ideia inicial foi do Tiago, ainda mal nos conhecíamos, como um objetivo traçado por ele. Contamos como passou a ser uma ideia a dois, partilhada e agendada para quando saíssemos de Angola. E contamos que tivemos de poupar dinheiro.

Mas, se calhar, faz falta contar outra vez, ao pormenor. Não somos ricos, somos milionários, de sonhos… Na realidade, não temos investimentos que nos permitam viver de rendimentos, mas também não somos dados a extravagâncias que hipotequem os nossos planos. E, apesar dos voos, somos de viver com os pés assentes na terra. Para nós, só fazia sentido dizer “BORA LÁ?!” se soubéssemos que tínhamos dinheiro para isso. Somos pragmáticos, realistas, e de números. Então, sabíamos que a probabilidade de a nossa veia artística e criativa ser suficiente para nos sustentar em viagem era reduzida.

Assim sendo, só havia uma solução, partir sabendo quanto tínhamos disponível para gastar. Mudámos o nosso estilo de vida em Luanda, mas continuámos a sair, a ir a jantares com amigos, a passar domingos na praia, e a encher o frigorífico. Então, o que mudou? Começámos a escolher melhor os dias em que queríamos efetivamente sair, deixámos de ir a festas caras e substituímos por eventos gratuitos, trocámos a maioria das idas ao Mussulo por opções mais próximas ou que evitassem a viagem de barco, como a Praia dos Surfistas em Cabo Ledo. Reduzimos os gastos em euros, tentando utilizar apenas o que tínhamos em kwanzas, indo de férias para locais que ficassem mais em conta a partir de Luanda, como o Brasil, São Tomé ou África do Sul, em que utilizamos as milhas acumuladas da TAAG. O material para a viagem foi comprado principalmente em saldos e com critério de preço e, quando íamos a Portugal, deixámos de alugar carro, tentando gerir uns “empréstimos” de carros dos nossos pais, entre outros “sacrifícios”, sempre por um objetivo maior. Além disso, com a perspetiva de ter um rendimento em viagem, começamos a exploração do nosso T2 no Porto, em alojamento de curta duração. Partilhando um bocadinho do que somos, fizemos sacrifícios, mas mantivemos o nosso estilo de vida. Nunca nos sentimos de castigo, apenas a amealhar. Quando fomos embora, tanto de Angola como de Portugal, despedimos-nos como deve ser, em grande, porque o que se leva desta vida é a vida que se leva.

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Quando é que dissemos “BORA LÁ”? Fizemos levantamentos de preços, de locais de interesse, organizámos e desenhámos a viagem, e estimámos quanto iríamos gastar cada dia, em cada região, para ver quanto tempo duraria o dinheiro. Quando nos sentimos confortáveis com o plano financeiro, como seria sempre fácil encontrar milhões de razões para adiar a partida, acabámos por muito antecipadamente comprar os bilhetes de ida e os seguros, para não haver desculpas. E lá continuámos a preparar tudo, até tirámos uma semana de férias semi-isolados, só para trabalhar no plano. Fizemos levantamento de rotas, empresas de transportes, hostels, hotéis, pousadas, guesthouses, vimos o preço de passes, de alternativas para nos deslocarmos entre cidades, etc.

Sistematizando, uma das formas simples que recomendamos para organizar uma viagem deste género:

  1. Ver no Booking, Hostelworld, etc., o preço da estadia/noite para cada cidade, na época do ano em que contam passar por lá;
  2. Estimar quanto precisam a mais para sobreviver durante o dia, incluindo as três refeições;
  3. Estudar as opções e verificar/estimar o preço da viagem para o destino seguinte do trajeto pretendido
  4. Nós defendemos um fundo de maneio para entrar nas atrações/pontos de interesse imperdíveis.

Simplificando, com base na nossa experiência, recomendamos um valor de 50$ por pessoa, se viajarem sozinhos, e não menos de 75$, se forem em casal. Nós estabelecemos uma média de 3.000€/mês para os dois, ou seja, 100€/dia, incluindo todas as despesas. Não se esqueçam que o nosso plano era de 12 meses, englobando América, Ásia e Oceânia. Tínhamos um tecto “alto”, para que os países mais económicos servissem de almofada para os mais caros, e porque temos um estilo de viagem mais dispendioso do que a maioria dos mochileiros. Acabamos por não completar os 12 meses, mas não por desvios de orçamento. Os nossos 3.000€/mês tiveram direito a um desconto final, fechando o orçamento por 30.000€ para um ano de viagem. Cerca de metade deste valor já estava reservado, outra parte vinha de salários em atraso do Tiago que deveriam ir chegando durante a viagem (pensávamos nós), e o restante do rendimento proveniente dos investimentos.

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Factores que podem influenciar significativamente o orçamento:

  • Destino – se optarem por uma estadia longa em países caros, como os da Oceânia, Europa central, América do Norte ou África, o orçamento provavelmente terá de subir. Pelo contrário, se falarmos em sudoeste asiático, podem baixar;
  • Permanência em cada local – se não se importarem de ficar um mês no mesmo sítio, então conseguem diluir o valor da viagem (parcela muito alta do orçamento), e até podem trabalhar em troca de estadia, alimentação, ou mesmo um salário (se tiverem autorização para isso);
  • Tipo de viagem – se não quiserem, de todo, entrar em museus, parques, experimentar comida típica, etc., então irão poupar bastante (não é claramente o nosso estilo);
  • Imprevistos – uma doença, um roubo, etc., levam a gastos extra que ninguém pode antecipar (exceto com seguros e precauções);
  • Amigos – ter um amigo no destino, alguém que nos oferece estadia, fantástico, poupança garantida;
  • Arriscar – se andarem à boleia, se usarem couchsurfing, se andarem nos transportes locais, se preferirem não contratar um seguro, então os custos baixam, mas… bem, fica ao vosso critério;
  • Conforto – aquilo de que estão dispostos a abdicar, sejam quartos de banho partilhados, beliches, voos low-cost, refeições de rua, tudo isso faz diferença no orçamento.

Coisas que descobrimos durante a viagem e que provavelmente teriam alterado os nossos planos, se soubéssemos antecipadamente:

  • A América do Sul estava bastante mais cara do que era suposto, por comparação com o ano anterior, principalmente nas atrações. Torres del Paine, Galápagos, Machu Picchu, etc., tinham subido brutalmente o preço dos bilhetes;
  • A contenção orçamental tem limites, e acabamos por querer fugir à regra algumas vezes, mais do que o planeado;
  • A vida de viajante não é só glamour, aquilo que víamos em blogs é excessivamente fabricado; já sabíamos disto, claro, mas saímos algumas vezes desiludidos com alguns destinos, porque as pessoas descreviam tudo como espetacular, mesmo quando não era; por vezes, na hora de escrever a crítica no booking ou no blog, sentimos-nos ET’s; Cabo Polónio é um bom exemplo disto;
  • Levar um ano de viagem às costas fica pesado, principalmente para as costas; para algumas pessoas faz sentido dividir a viagem em períodos mais curtos (mas só saberão depois de tentar);
  • Nem todos os planos correm conforme delineados, um exemplo disso foram as já faladas transferências dos salários para o exterior de Angola, das quais dependíamos; portanto, atenção à vossa fonte de rendimento;
  • não tivemos exatamente em conta a sazonalidade do rendimento do alojamento local; aliar isto aos preços inflacionados da américa do sul, uma receita para o “desastre”.

Cada um de nós vai descobrir uma parte de si que não conhecia na viagem, os percalços vão existir, o dinheiro vai ser gasto mais rápido que o imaginado, mas vamos contar-vos um segredo…

… vai valer o esforço! Cada euro, libra, dolar, yen gasto, cada problema, cada descoberta, vai valer a pena. BORA LÁ!!!

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