VIAJAR DE BALÃO: O SONHO OU O PESADELO? (TURQUIA)

O título exagera, mas queremos deixar claro que nem todas a viagens de balão na Capadócia são maravilhosas, uma grande percentagem são um roubo e, apesar da paisagem ser inesquecível, pode não cumprir com as expetativas. Então, como evitar o pesadelo e conseguir ter uma viagem, no mínimo, agradável?

Há pequenos sinais que nos mostram se uma empresa é boa ou não. As recomendações no tripadvisor, do hotel onde vão ficar, os rankings de empresas, etc. Em muita coisa, reservar em cima da hora e localmente leva a um preço mais baixo, como, por exemplo, no Atacama (Chile), mas aqui não. Capadócia é o destino do momento, as fotos que vemos nas redes sociais são brutais (e levam muito Photoshop), a Turquia é relativamente barata, há passeios de balão e muito mais. Os preços não baixam no local, aliás, deixar para a última pode levar a que não haja um único lugar livre, porque os balões por vezes esgotam. É triste, porque com isso os preços dos passeios sobem, sem isso resultar num aumento dos salários dos funcionários. A procura é tão grande que, primeiro, leva a um aumento do número de pessoas por balão (erro), depois, leva a uma grande pressão para pagar em cash, com direito a ligeiros descontos, de preferência em euros ou dólares.

A nossa opinião pessoal é que 24 pessoas por balão a 150€ é um assalto nítido. Em 24 pessoas, 8 não têm uma visão desimpedida. Não há possibilidade de ir girando os melhores lugares, portanto fica-se muito dependente da gentileza e destreza do piloto para ir girando o balão e todos tenham possibilidades semelhantes de ficarem virados para onde esteja a ação (normalmente atrás). A graça de andar de balão na Capadócia não é só estar no ar a ver a paisagem, aliás, 50% das pessoas dentro do nosso balão nem olharam mais de 10 segundos para a paisagem, o deslumbre é ver as dezenas de balões no ar juntamente com o nosso emoldurados numa paisagem única ao nascer do sol. Para muita gente, andar de balão não tem a mínima graça, não o fariam noutro contexto, mas vêm até à Capadócia para esse fim.

A viagem de balão começa com a logística de, pelo menos duas semanas antes, negociar e concretizar a reserva de lugar. O nosso hotel recomenda duas empresas: Air Kappadokya ou Butterfly Balloon. A Butterfly já tinha sido recomendada pelo primeiro hotel que tínhamos reservado antes de trocar as datas. Nós fizemos a viagem pela Air Kappadokya e não recomendamos, tanto pela nossa experiência de voo, como olhando no dia seguinte para o percurso dos diferentes balões a partir do solo. Os pilotos são nitidamente muito capazes, mas pouco empáticos. O voo foi suave, mas começámos nos primeiros dez balões e às 7:50h já estávamos no hotel, numa espécie de corrida desenfreada para despachar o turista (justificada pelo vento, mas que aparentemente é problema só desta companhia). Nós arriscamos recomendar a Butterfly Balloons, a Confort Ballons (estes são lindos), a Royal Balloons e, talvez, a Anatolian Balloons. O preço normal é 150€ com 24 pessoas. Recomendamos que não aceitem este tipo de voo. Se conseguirem 180€ com 16-20 pessoas, idealmente 16, a diferença de preço justifica o investimento. Perguntem como é o pequeno-almoço e o brinde de champanhe (geralmente o brinde não é com champanhe, mas sim com um espumante sem álcool). (Nota: depois de termos publicado o post houve um comentário que falava nesta página com uns preços espetaculares e com as companhias que referimos acima)

Devem marcar nas vossas férias duas a três manhãs numa das cidades da Capadócia. Pode haver cancelamento de voos por mau tempo e nada vos garante que haja vaga no dia seguinte. Marquem o voo logo para a primeira madrugada para terem tempo de remarcar se o clima não for favorável. Algumas empresas pedem os dados do cartão de crédito mas preferem pagamentos em dinheiro. Os dados salvaguardam desistências de última hora, sendo-vos cobrado 100% do valor.

Há alguns tipos/escolhas de voo: voos de uma hora, voos de hora e meia, redução do número de passageiros, voo deluxe, etc. Este último pode custar 250€ e só leva 12 pessoas (numa empresa com ética).

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Como é o voo:

O voo inclui o transfer de e para o hotel por volta das 5:15-5:30h, um pequeno-almoço, o voo, o espumante no final e um certificado/medalha de participação. O regresso é normalmente por volta 8:30-9:00h.

Sai-se do hotel ainda de noite e faz frio. Deve-se levar algum agasalho, mas em outubro era perfeitamente tolerável. O pequeno-almoço depende de empresa para empresa, mas não é o mais importante, porque regressam a tempo de tomar o pequeno-almoço no vosso hotel. Esta para nós é outra falha da empresa que nos forneceram no hotel, foi um pequeno-almoço fraquinho quando comparado com outras empresas. A sala começa a encher e cada turista começa a ser chamado para pagar e ser distribuído por balão (muitas empresas voam diariamente com vários balões). Na hora de partir são levados de carrinha até ao descampado onde estão dezenas de balões. Passam por vocês atrelados com os cestos. Recomendamos que aproveitem o momento em que o balão se está a acabar de encher para apreciar a atmosfera e a monstruosidade do “bicho”. A subida para o balão é feita de escadote, em uma ou duas filas.

É feito um briefing com regras. A primeira coisa a saber é a posição de aterragem. As mochilas vão no chão, há umas pegas de corda ao nível da cintura. Na aterragem, cada pessoa agarra duas pegas, prende a mochila junto aos pés e baixa-se. O nível certo é até posicionar a cabeça no encosto atrás de si. O balão começa a levantar voo, o típico barulho, o calor e brilho da chama junto de nós, tudo é espetacular.

Selfiesticks, fitas, pegas, todos estes gadgets são recomendados para conseguirem manter a máquina fotográfica ou o telemóvel minimamente seguros. O voo varia de balão para balão. Há uns que contornam a cidade de Göreme, há outros que sobrevoam a cidade. Outros vão até ao Vale do Amor, uns voam sobre os miradouros. Dura uma hora, às vezes menos, nunca mais. A aterragem é sempre coordenada com contacto permanente com a equipa em terra. Há pilotos que gostam de aterrar diretamente o cesto no atrelado, outros que pousam primeiro em terra e alguns a quem a aterragem não corre como previsto e o cesto tomba (neste caso a posição de aterragem é super importante). Em poucos segundos vocês são retirados do cesto, o balão esvazia-se e é dobrado e vocês recebem o vosso copo de champanhe sem álcool e o certificado. Em quinze minutos estão na carrinha a serem levados de volta para o hotel. Não sem pelo meio vos pedirem gorjetas.

Se o vosso intuito é fazer fotos maravilhosas dignas de capa de blogs ou revistas de viagens, então pensem numa viagem com no máximo 8 pessoas. Há muitos chineses e coreanos que vão estar todo o tempo a tirar fotos com selfiesticks como é a cena deles, a taparem o vosso ângulo de visão, sem (aparentemente) repararem que todos merecemos “um lugar ao sol”.

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Dicas – Para aumentarem a probabilidade de conseguirem ter o melhor spot recomendamos:

  1. O cesto divide-se em 5 secções. A central é do piloto, co-piloto e botijas. Depois, simetricamente, 2 secções para cada lado, frente e trás. Os melhores lugares são os cantos de cada secção. Caso seja um balão de 12 pessoas a probabilidade de ficar num mau lugar é muito menor, porque é possível as pessoas irem rodando no espaço vazio. Caso seja de 16 pessoas pior, 24 é para esquecer (nosso caso).
  2. Antes de subirem para o cesto tentem perceber ou perguntem qual é a frente do balão. Posicionem-se na traseira se forem dos primeiros balões a sair. Se forem dos últimos escolham entre 1) ir na frente e verem mais balões, ou 2) irem na traseira e verem melhor o nascer do sol.
  3. Não tenham pressa em entrar porque quem entra primeira fica no centro, junto ao piloto, tendo menor ângulo de visão.
  4. Entrem quando os lugares centrais estiverem todos ocupados de forma a ficarem com a frente dos lugares de topo/canto, assim têm visão livre de 180 graus.
  5. Se forem duas pessoas ou mais não queiram ficar na mesma secção/”gaiola”, mas apenas do mesmo lado do balão. Assim conseguem tirar fotos uns aos outros sem precisarem de uma máquina com objetiva olho de peixe
  6. Se não conseguirem nada disto, azar o vosso (desfrutem na mesma e não pensem muito no assunto)

O nosso voo:

Chegámos ao escritório da Air Kappadokya e para pequeno-almoço só havia pão simples, bolo comprado, chá e sumos de pacote. A sala começa a encher e começamos a perceber que se calhar tinha sido importante perceber quantos éramos por balão. Somos chamados para pagar e é quando a Raquel olha para os planos de voo do piloto e lê 24 pessoas. Mau! Na hora de pagar, sem nenhuma simpatia, o funcionário tenta convencer-nos que o balão deve ser pago em euros, aí o Tiago rebate que a moeda do país é a lira, portanto, não sendo pago com cartão, tem de ser em liras. Seguimos para a carrinha e para o campo de balões e cada um de nós tem um autocolante com a cor do nosso balão. Se fosse hoje tínhamos ficado separados na secção do balão. Houve a possibilidade mas não quisemos e isso levou-nos a ficar no lado de dentro da secção, junto ao piloto. Pior lugar como já perceberam! O piloto nunca girou o balão, por isso tivemos sempre de costas para Göreme, para o nascer do sol e para quase todos os balões. Vimos bem os vales, mas nunca muito bem os outros balões. Saímos mais cedo, nos talvez dez primeiros balões e tivemos sempre aquela sensação de estar à frente de todos os outros, perdendo aquela sensação de estar rodeado de balões. Por 150€ por favor não aceitem um balão de 24 pessoas. Não queremos que se sintam defraudados nas expectativas como nós sentimos. Há um fotógrafo que tira fotos antes de levantar voo, as fotos não são grande coisa porque está escuro e eles não dominam a máquina, mas custa 10 liras cada. O nosso voo não durou uma hora e aterrámos muito antes de quase todos os balões. Primeiro, com uma falsa aterragem, depois com uma aterragem suave em terra. Continuámos dentro do balão quando o piloto levantou o balão cerca de meio metro para pousar novamente, agora no atrelado. Quando saímos do balão servem-nos o tal espumante, sem álcool, que ainda misturam no copo com sumo. Por isso, até no espumante sem álcool poupam. Tinham duas garrafas e só abriram uma. Sabemos que outras companhias oferecem bolo. E aí recebemos uma medalha cada um. Algumas companhias dão um certificado.

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Para terem uma noção dos preços. Em Portugal, por 150€ têm um voo de balão de 1:30h com 10 pessoas. Nós compreendemos que para os funcionários seja frustrante ver o preço que se cobra por passageiro e saber quanto ganham ao fim do mês, principalmente numa fase em que a moeda desvalorizou e tiveram uma grande crise política. Para terem uma ideia, uma companhia que tenha 3 balões fatura 10.800€ por dia. São dois pilotos por balão, dois motoristas para carrinhas de passageiro, um para o atrelado, e quatro pessoas que montam e desmontam o balão. 24 utilizadores e 9 funcionários diretos na empresa por balão. Funcionários que vêem a empresa faturar cerca de 100.000€/mês/balão e que de certeza que ganham uma migalha disso. Até achamos que as pessoas são muito simpáticas para a forma como são exploradas. Dizer que a forma de solucionar o problema de maus serviços é não reservar nas más companhias é completamente irrelevante, querendo viajar para a Capadócia para andar de balão, por muito que se saiba que se pode estar a dar 150€ para ter uma experiência turística da treta, ninguém vai dizer que passa, se é para isso que lá vai. O que nos disseram no hotel foi para reclamar no site e e-mail da companhia que os patrões levam isso muito a sério porque sabem a importância dos balões para o turismo da cidade e como más críticas podem ser um mau cartão de visita.

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