Olhamos para o Palácio de são Bento como símbolo da democracia. A casa da Assembleia da República é também muitas vezes o grande cenário para o nosso descontentamento politico. É junto às escadarias que acabam quase todas as manifestações nacionais, mas se pararem para observar o edifício para lá da sua função verão que é um belo exemplo de arquitetura neoclássica com uma boa história para contar.

Fica no largo de São Bento, tem uma grande escadaria de 1941, com dois leões sentinelas. A fachada tem 4 esculturas femininas: Prudência, Justiça, Força e Temperança, e tem uma guarda própria, que não sendo parte da fachada, encontram-se sempre junto dela.

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Nós fizemos o tour da Assembleia da República depois de remarcar mais do que uma vez. A visita tem muita procura e só acontece um sábado por mês, o que dificultou muito a tarefa. É preciso marcar por telefone e geralmente com pelo menos dois meses de antecedência. Soubemos das visitas pela agenda da cidade e marcámos em março para maio. Com tanta antecedência de marcação, quando chegou a data, afinal já tínhamos outros compromissos e adiámos para daí a uns meses. Desta vez marcámos direitinho na agenda e não falhámos. Como é fácil esquecer a nossa data os serviços enviam um SMS de lembrança na semana que antecede.

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À entrada há um controlo de presenças e passamos num detector de metais. Temos alguns funcionários à nossa espera que nos cumprimentam. O guia é um funcionário da AR já antigo e claramente apaixonado pelo que faz. Conta-nos a história e leva-nos de sala em sala. Fala-nos de factos verídicos e de mitos urbanos. Defende com unhas e dentes o plenário e explica como funciona, para que se entenda o porquê de às vezes na ARtv se ver o hemiciclo tão vazio, ou alguns deputados tão distraídos, como o caricato episódio em que uma deputada foi apanhada a pintar as unhas, ou as vezes em que os deputados passam pelas brasas ou estão mais concentrados nos ecrãs das redes sociais.

O tour é engraçado, esclarecedor, com alguns estrangeiros no grupo, mas tudo é explicado em português. O ritmo é calmo, com espaço para perguntas e interrupções.

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Entramos pela antiga igreja do mosteiro com uma escadaria. Encontram aqui uma fileira de bustos de figuras ilustres do parlamento, a coroa que estava na Câmara dos Pares, onde agora está a esfera armilar, e o busto de Luís de Camões.

É um orgulho ver o edifício tão bem preservado. Vemos a zona onde tantas vezes os deputados param para falar à comunicação social e lembramos os momentos em que já nos vimos em casa a ouvir palavras que se mostraram promessas vãs, ou as vezes em que os ouvimos falar mal da oposição, tudo do conforto do nosso sofá.

O edifício foi construído para ser o Mosteiro de São Bento da Saúde, que albergava os monges de Braga. Tratavam-se aqui as vítimas da peste negra. Os monges mudaram-se para Tibães em 1820, em 1833 extinguem-se as ordens religiosas e o edifício passa a pertencer ao estado, onde instala o Parlamento Monárquico, passando a chamar-se Palácio das Cortes. A partir de 1911, com a República instalada, passa a chamar-se Palácio do Congresso e, de 1933 a 1974, volta a mudar de nome, para Palácio da Assembleia Nacional. É desde meados do século XX que tem a atual designação de Palácio de são Bento, recuperando e honrando a memória do mosteiro beneditino.

Do plano inicial, de Baltazar Alvares, já pouco resta, porque cada uma destas fases trouxe remodelações que acrescentaram alas e novos pormenores. É Possidónio da Silva, arquitecto da Casa Real, que desenha a Câmara dos Pares e a dos Deputados, o mesmo que participa nos Palácios das Necessidades, da Ajuda e da Pena, e quem desenha o do Alfeite. Em 1895 houve um incêndio na ala norte, que foi depois remodelada, mas Ventura Terra decidiu modificar quase todo o edifício, sendo agora quase irreconhecível face ao mosteiro inicial. Um dos sinos que estava na torre, perdida durante um incêndio, está exposto no átrio principal.

Escadaria

A escadaria é imponente e majestosa, com um lustre qualquer coisa fora do normal. É da Fábrica do Braço de Prata, pesa duas toneladas e tem 144 lâmpadas. No topo temos pinturas e esculturas que prestam louvor à Pátria.

Cada topo de porta no cimo da escadaria representa as antigas oito províncias de Portugal, cada uma com o brasão da sua capital (Extremadura – Lisboa, Minho – Braga, Beira Alta – Viseu, Trás-os-Montes – Bragança, Algarve – Faro, Alentejo – Évora, Douro – Porto e Beira Baixa – Castelo Branco).

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Salão Nobre

O guia diz-nos que esta sala é única, com obras nas paredes que exaltam os descobrimentos, mas a sala alberga durante o período da nossa visita uma exposição de Aga Khan que cobre grande parte das paredes. Não só não nos é permitido filmar, como a luz é escassa. Dizem-nos os funcionários que é pena, porque vale a pena, mas neste momento a sala segue as exigências do líder ismaelita. Somos vigiados pela GNR e o número de visitantes em simultâneo na sala é controlado. Cerca de um mês depois vemos a mesma sala num programa de televisão, agora sem  a exposição. E já conseguimos perceber o que é que as obras têm de especial. Representam momentos específicos da história, tais como:
– Infante D. Henrique entrega o plano das descobertas ao capitão da Armada;
– Vasco da Gama recebe os emissários do Samorim de Calecute;
– Tomada de Ceuta;
– Diogo Cão, na foz do rio Zaire;

– Bartolomeu Dias dobra o Cabo das Tormentas, depois chamado da Boa Esperança;
– Pedro Álvares Cabral desembarca em terras de Vera Cruz-Brasil;
– Tomada de Malaca por Afonso de Albuquerque.

Esta sala dá para a única varanda da fachada, onde foi proclamada a República após abolição da monarquia pelo Parlamento.

Galeria dos Presidentes

Dá acesso ao Gabinete do Presidente. Encontram-se aqui retratos do Presidente da Assembleia Constituinte e dos 12 antigos presidentes da AR. Os retratos são de um realismo impressionante, alguns podiam quase ser fotografias.

Sala do Senado

A Sala do Senado (corporativa) continua quase igual ao original de 1867. Por cima do retrato do Rei D. Luís I, da autoria de Leandro Braga, existia, durante a monarquia, uma coroa gigante, que agora se encontra no átrio, tendo sido substituída por uma esfera armilar. É uma sala equipada com galerias de tradução simultânea e, por baixo destas, encontram-se os oito bustos da Câmara dos Pares do Reino, que foram retirados nos primeiros anos da República, tendo sido repostos em 1920.

O retrato de D. Luis I nem sempre esteve ali, foi intercalando com os retratos dos reis seguintes e, mais tarde, pela bandeira e por uma tapeçaria que representava as Cortes de Leiria, de 1254, as primeiras em que o povo estava representado. Em 1996, o retrato de D. Luis I regressa.

É nesta sala que se realiza o Parlamento dos Jovens e a atribuição dos prémios do Conselho da Europa e dos Direitos Humanos.

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Sala dos Passos Perdidos

Aqui muitos passos foram nitidamente perdidos à espera do deputado a quem se queria dar uma palavra à saída das sessões. Muitos descobriam aqui que este não tinha cumprido a promessa que tinha feito. Hoje continua a ser uma sala de espera, de encontros e desencontros entre deputados, membros do governo e jornalistas.

Era a nave central da igreja. Tem as pinturas de Bordalo Pinheiro, que representam pessoas importantes do pré-liberalismo. Por cima das portas laterais encontram-se leões em gesso.

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Sala das Sessões

A sala foi inaugurada em 1903 e é inspirada na política francesa, tendo uma disposição de hemiciclo. A pintura representa a primeira Assembleia Constituinte Portuguesa, de 1821, que deu origem à constituição. Esse documento, assinado por 141 deputados, encontra-se guardado na biblioteca do edifício. As estátuas representam a Diplomacia, a Jurisprudência, a Justiça e a Eloquência. Ventura Terra desenhou uma clarabóia gigante para que a sala pudesse ter iluminação natural.

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Aproximamos-nos da galeria de onde se pode assistir ao plenário e, confessamos, estar ali é uma honra. Mesmo que a política não nos seduza, sabemos que é nesta sala que se tomam decisões que mudam o rumo de Portugal. Podemos escolher um lugar e sentar. Abrimos gavetas, tocamos no microfone, vemos as etiquetas com os números que o deputado que ocupa a cadeira acha importantes. O ponto alto é, claro, sentarmos-nos na cadeira e sentir a panorâmica que 1 dos 230 deputados tem a partir daquele lugar em que deverá(ia) representar quem o elegeu. Esta é também a altura para procurar os lugares onde se sentam os nomes mais sonantes do nosso parlamento.

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Biblioteca Passos Manuel

Este espaço, de acesso livre, é muito cuidado, ocupa quatro salas e alberga obras reunidas desde o tempo de Biblioteca das Cortes. Reparem no busto de Passos Manuel.

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Refeitório dos Frades

Aqui já funcionou o Arquivo Nacional do país, com documentos históricos, transferido para este palácio quando o terramoto de 1755 ameaçou a Torre do Tombo do Castelo de são Jorge, a abreviada Torre do Tombo. Esteve aqui até 1990, ano em que foi transferido para a Cidade Universitária, em Alvalade, para um edifício criado para o efeito.

Apesar de a sala ter sido rebaixada, para a criação dos pisos intermédios de Gabinetes, mantém os 18 painéis de azulejos de 1770, de estilo rococó pombalino. Representam a vida quotidiana (7) e a vida em são Bento (11). Pensa-se que seriam 24 painéis originais. Desde 2013 é o Centro de Acolhimento ao Cidadão, estando a ser preparada para Sala de Exposições Permanente da AR.

Arquivo Histórico Parlamentar ou Sala dos Arcos

Aqui encontramos 200 anos de documentos, inicialmente guardados no Palácio das Necessidades. Tem uma sala de leitura e é um dos poucos espaços originais do mosteiro que se manteve. Contígua, fica a Livraria Parlamentar, que tem acesso pelo exterior.

Há outros espaços que não visitámos, como:

  • Sala D. Maria II – utilizada para a Conferência de Líderes e dos Presidentes das Comissões Parlamentares.
  • Gabinete do Presidente da AR e a sua Sala de Visitas – aqui reunia o Conselho de Ministros, durante o Estado Novo. Tem diversas obras de arte da coleção do Museu de Arte Antiga.
  • Sala Acácio Lino – hoje pertencente a um dos grupos parlamentares, começou por ser a sala do Presidente da República quando visitava a AR e, mais tarde, a sala de visitas do Presidente da AR.
  • Sala Lisboa – antigo Gabinete do Presidente da AR, hoje também é sala de trabalho de um dos grupos parlamentares.
  • Sala de Comissão Parlamentar – esta sala (ou uma semelhante, são 11) conhecemos bem da televisão, por todas as vezes que ouvimos os excertos das,  infelizmente, habitualmente anedóticas comissões de inquérito.
  • Claustro – o mosteiro tinha quatro, mas só dois foram concluídos.

A residência oficial do Primeiro Ministro faz parte do mesmo espaço, mas em edifício separado. Os jardins são separados por um grande muro e uma escadaria. António Costa, actual primeiro ministro, abriu os seus jardins ao público aos domingos (está nos nossos planos).

Marcar visitas nos últimos sábados de cada mês:

Tel – 21 391 96 25 | 21 391 92 09

As visitas são direcionadas para escolas, cidadãos individuais ou em grupo, têm a duração de 1:30h e são às 15h e às 16h, no último sábado do mês, excepto em agosto e dezembro. São grátis, mas não se esqueçam de marcar.

365 dias no mundo estiveram no Palácio de São Bento a 28 de julho de 2018

 

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Amanhã o palacio de sao bento abre ao publico