Há experiências na vida que só vamos ter uma vez, pela sua excentricidade, pelo preço, pela dificuldade de realização ou simplesmente porque a magia só fica se o fizermos uma única vez. Quando estávamos em Angola cometemos alguns excessos, tivemos algumas experiências únicas que nos custaram mais do que hoje estaríamos dispostos a pagar. Viagens de fim de semana, jantaradas, prendas de anos, concertos, até a escolha da Lua de Mel são alguns dos exemplos. Numa altura em que tínhamos salários acima da média decidimos que valia a pena termos experiências que provavelmente não voltaríamos a ter capacidade para concretizar.

É assim que surge o Presidencial na nossa vida. A Raquel tinha ido jantar com uma amiga ao 28A, um apartamento que servia refeições em casa. É no 28A que conhece o Gonçalo e a Íris, que estavam a organizar a primeira viagem do comboio presidencial na linha do Douro aberta a quem quisesse usufruir desta experiência. Uma viagem única onde seria servido um almoço concebido pelo chef Dieter Koschina, do duas estrelas Michelin Vila Joya, em plena linha do Douro e com o comboio em andamento. Se ver a notícia na revista já nos tinha aguçado a curiosidade, ouvir o Gonçalo a explicar o conceito do Vila Joya no Douro convenceu a Raquel. A viagem aconteceu no aniversário do Tiago e num dia horrível para nós. Estávamos com uma intoxicação alimentar e totalmente KOs. Tivemos muita vontade de desistir, mas custava-nos perder o dinheiro e a oportunidade.

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O programa de viagem digna de presidente arrancou às 11h30, estendendo-se até às 18h30. Chegámos cedo a São Bento, e logo ali foi amor à primeira vista pelo comboio. Lindo, gracioso, quase imperial, e muito bem cuidado. As gravações nas carruagens azuis, o acolchoado, os detalhes interiores, sem dúvida este comboio é especial. Foi totalmente recuperado pelo Museu Nacional Ferroviário e decorado aos anos 70, período final em que foi utilizado por chefes de estado. Entrámos e ficámos numa cabine com mais um casal. Mais uma vez, tudo é fabuloso. Apesar de estarmos quase mortos, conseguimos perceber que era uma experiência imperdível.

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A refeição é servida na carruagem restaurante, em mesas de 4, mas estamos sozinhos. É uma refeição composta por vários momentos e sabemos sempre o que estamos a comer. Os quatro pratos são apresentados com pormenor e um enólogo explica que vinho da Niepoort acompanha a refeição.

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Aqui, mesmo com a indisposição, não abdicamos de nada. Somos de comer bem e não há dor de barriga que nos faça saltar estes pratos. No final, Koschina vem agradecer a nossa presença. A paisagem é absurdamente bonita, mas isso já qualquer português deverá saber, o Douro é único e esta é das viagens de comboio mais interessantes do nosso país. Não queremos ter a presunção de dizer que é a melhor do mundo, mas quem sabe?

Chegámos à primeira paragem, o Pinhão, com uma passagem pelo The Vintage House Hotel, Douro, que permite beber um café ou um refresco e apanhar um pouco de sol.

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Está quase na hora de ir à Quinta da Roêda, da Croft, também no Pinhão e a uma curta distância a pé, para a apresentação e prova de vinhos do Porto. Esta quinta é das mais conhecidas e muita gente aproveita a passagem para renovar a sua garrafeira. A renovada quinta é apelativa, o céu está azul, um lindo dia de abril. Provamos os vinhos do Porto, contemplamos a vista e tiramos umas fotografias.

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Há medida que o dia vai avançando a nossa saúde vai melhorando e começamos a desfrutar do dia. Regressamos ao comboio para a sobremesa, cafés Delta e digestivos. Começa o regresso e concluímos que compensou não desistir e que levamos uma connosco uma experiência que jamais esqueceremos.

O comboio:

As cabines são confortáveis, sóbrias e dão alguma privacidade com a sua porta. Podem descansar com o embalo do almoço e da carruagem, mas a vista é imperdível, portanto não fechem os olhos por muito tempo.

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A decoração da casa de banho do comboio e os produtos, mais uma vez, cheiram a requinte, são Portus Cale, da Castelbel.

Toda a viagem foi muito bem organizada, sem nada a apontar. O staff foi muito cuidadoso, educado, diríamos até que demonstraram preocupação com o nosso estado e o facto de não estarmos a usufruir da experiência ao máximo. O Gonçalo e a Iris vão passando e conversando com cada “passageiro”, para receber o feedback. A viagem foi suave, o comboio é confortável, ao nível de um comboio que transportou chefes de estado. Todos os prémios ganhos por esta iniciativa são, sem dúvida, merecidos.

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A experiência termina com a oferta de um saco com miminhos: um livrinho personalizado, um sabonete Portus Cale e uma garrafa (pequena) de um Redoma Tinto da Niepoort (que ainda não abrimos).

O preço:

Nós pagámos bastante menos do que o preço atual, que foi incrementando com a procura, o reconhecimento internacional e os prémios recebidos. Os chefes variam e há várias edições ao longo do ano, geralmente na primavera e na altura das vindimas. O preço também se explica pelo custo logístico de pôr este comboio a circular, pela mudança da cozinha de um restaurante com estrela Michelin para um comboio, e com a própria refeição que é servida, acompanhada de vinhos de gama alta. Se pagaríamos os 650€ atuais? Provavelmente não. Se gostaríamos de repetir a experiência? Sem dúvida, até com a intoxicação alimentar. O que fica das viagens não é apenas os países que pisámos e “riscámos”, é principalmente as experiências que desfrutámos.

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Ainda algo “amarelos”…

365 dias no mundo estiveram no Vila Joya Douro a 7 de abril de 2016

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