Junho é o melhor mês do ano em Lisboa. Há a Feira do Livro, começa o verão e é o mês dos Santos Populares, dos arraiais e dos casamentos de santo António. Se milhares de turistas visitam a cidade todo o ano, muitos portugueses vêm a Lisboa neste mês para as festas da cidade. A capital portuguesa veste-se de todas as cores, de música, de sardinhas, caldo verde, cerveja, arroz doce e manjericos.

Quem conhece a cidade das 7 colinas sabe que há bairros ainda muito tradicionais, em que a boa vizinhança é lei e onde (ainda) “toda” a gente se conhece. Falamos em “ainda” e em “toda”, porque o espírito bairrista acabou por conquistar estrangeiros que se têm mudado para prédios reabilitados ou para alojamentos locais estrategicamente localizados. Se, por um lado, temos turistas e novos residentes apaixonados pela cidade, por outro, temos alguns antigos moradores indignados com a exploração da sua cidade amada e com o elevar dos preços. Teríamos aqui discussão para vários artigos e este não é seguramente o tema deste nosso blog.

Então, o que acontece em junho na capital portuguesa?

Geralmente, já se anda de roupa de verão, bronzeado a surgir com as primeiras idas à praia, noites mais longas e amenas. 2018 não foi bem assim, mas o português adora reclamar e discutir meteorologia, não deixando nunca de aproveitar as festas. Esperemos que 2019 seja tradicional (já teve uma um dia de chuvadas na primeira semana).

O feriado municipal é a 13 de junho, com a noite de Santo António a ser comemorada de 12 para 13. Mas a cidade achou que uma noite era pouco e adotou a festa para todo o mês. Afinal, falamos do santo casamenteiro, com um role de histórias românticas de sucesso. Durante o mês há arraiais espalhados pela capital portuguesa. É muito fácil identificar um arraial pelas fitas de cores penduradas entre prédios e postes de luz, os palcos e barraquinhas de comes e bebes. Vários bairros têm festa todo o mês, alguns só aos fins de semana e no feriado. Também encontram uma programação recheada de concertos, com fado no castelo de S. Jorge – podem encontrar a programação aqui. Bares e restaurantes decoram-se para a temática e organizam também eles festas de santos populares.

Os bairros que participam nas marchas acabam por ser os mais famosos, ou não fossem as marchas transmitidas na TV. E o que são as marchas? Cada bairro marcha na Avenida da Liberdade (e nos dias anteriores no Altice Arena) com uma música, coreografia original e as suas roupas cheias de brilho. Se querem mais pormenor façam uma pesquisa, vejam videos, a nossa explicação não lhes faria jus, mas é uma espécie de desfile de carnaval sem ser ao ritmo do samba, mas de música tradicional portuguesa. É habitual escolher-se padrinhos famosos, desde cantores, actores, modelos ou apresentadores de televisão. Nos bairros mais tradicionais é um privilégio participar nas marchas e vários moradores dedicam muito tempo precioso a este evento, seja com ensaios, seja a preparar o figurino, seja na organização da própria festa do bairro. Em 2018 participaram 23 marchas, e todas desceram a Avenida da Liberdade desde a rotunda do Marquês de Pombal até à Praça dos Restauradores. Para quem não conhece, é nesta praça o ponto alto do desfile, pois é aqui que se pára para atuar perante o júri. A bem da verdade, vê-se melhor pela televisão, mas o ambiente só se pode sentir estando presente. Acaba por haver letras que ficam no ouvido (Ié ié ié, Alfama é que é) e quase toda a gente fica a saber que ganhou Alfama, mais uma vez.

A derradeira noite de Santo António começa num qualquer bairro da baixa lisboeta, onde se deve jantar sardinha ou bifanas. A melhor hora para chegar é o mais cedo possível, para fugir ao trânsito. Aliás, nesta noite/final de dia, os transportes públicos ou as motas são as únicas escolhas viáveis. Se querem comer sardinha, esta deve ser servida em cima de broa e comida à mão. No fim, come-se a fatia de broa embebida no molho da sardinha grelhada. Seja sardinha ou carne, a bebida é “sempre” cerveja, a grande patrocinadora da festa. Recomendamos que façam uma subida a pé até até ao Castelo, passando pela Sé, pelo menos uma vez na vida. Ou podem ir para a Bica, que, tal como Alfama, está sempre a abarrotar, mas não é uma verdadeira noite de Santo António se durante o trajeto não perderem parte do grupo, reencontrarem outros amigos/conhecidos ou fizerem novos.

Para quem acha que a noite de 12 para 13 é demasiado confusa, podem sempre aproveitar os fins de semana ou as outras vésperas de feriados do mês. Nestas alturas a festa acaba por ser mais nacional e menos turística. Nós, o ano passado, andámos pelos Santos até fartar. Fomos comer sardinhas ao Pateo 13 no fim de semana anterior, para o Tiago ser introduzido com calma e sem grandes confusões, passeámos no domingo à tarde de máquina fotográfica na mão para assistir à preparação e regatear imperiais (ou finos), e passámos a noite de 12 para 13 numa festa de bairro bem organizada que, lamentamos, mas não vamos publicitar, para não estragar, porque queremos repetir 🙂 E fomos no fim de semana seguinte à famosa Vila Berta, vibrar no meio da confusão, num dos espaços mais típicos. Também assistimos ao concerto do Camané no Castelo, com os pais da Raquel, e jantámos na Morgadinha de Alfama. Um mês em cheio!

Temos de falar no evento de fado que decorre nesta altura no castelo de São Jorge. O Fado no Castelo é uma série de concertos gratuitos, que começam às 22h, com lugares limitados e sentados. Em 2018 aconteceu de 14 a 16 de junho e todos os dias esgotou rápido. Os bilhetes são levantados presencialmente a partir das 20h, no castelo ou no Museu do Fado, até dois por pessoa. Recomendamos porquê? Porque os fadistas são sempre grandes nomes nacionais (este ano, 2019, vai, por exemplo, Ana Moura) e a vista é fenomenal. Lisboa tem vários miradouros, mas poucos terão uma vista tão privilegiada como o castelo.

Falámos acima dos casamentos de santo António, acontecem anualmente no dia 12 de junho, desde 1958, organizados pela CM Lisboa. As inscrições decorrem no início do ano e servem para permitir que noivos que desejam casar pela igreja, mas que não têm as condições certas, o possam fazer. Já foi um evento maior, tem perdido um pouco da grandeza porque cada vez é mais comum não casar. Os casamentos de Santo António fazem parte das festas de Lisboa e dão o pontapé de saída para a festa principal.

Estava (Raquel) à espera de uma festa já algo alterada para agradar a turistas, afinal os meus últimos santos foram em 2012, ano em que me mudei para Luanda, intencionalmente só após os Santos. Muita gente diz que sim, que está diferente. Eu não achei, ainda vi uma festa muito bairrista, tradicional, à portuguesa e barata (calma, também acho uma sardinha a 2,5€ cara, mas conseguimos beber uma imperial a 1€). Adoro aquela festa de bairro de vizinhos, de partilha de quadras e de comida, de invadir a casa do vizinho para poder ir à casa de banho, de dançar com desconhecidos, de fazer o muito tuga comboio… e isso ainda existe! Ainda se escrevem as tradicionais quadras a Santo António, o santo casamenteiro, para pedir que faça das suas e arranje um par a quem escrever. Nos últimos anos tem sido uma tradição já levada para o lado cómico, afinal, no tempo dos millennials, quem quer admitir que precisa de um santo para casar?

Santo António, Santo António
És o santo casamenteiro
Arranja-me um homem para casar
Mas que tenha dinheiro

Há várias músicas que ficaram famosas por celebrarem a cidade, como:

Olha o castelo velhinho, que é coroa
Desta Lisboa sem par!
Abram, rapazes, caminho,
Que passar vai a Lisboa!

(Lá vai Lisboa, imortalizada nas vozes de Amália Rodrigues e Beatriz Costa, mas escrito por Norberto de Araújo).

Como podem perceber, nós aconselhamos toda a gente a vir pelo menos uma vez na vida a Lisboa em época de Santos Populares.

Festas de Lisboa