Quem não sabe de onde vêm as maiores cerejas de Portugal? Pois, do Fundão, mas há concorrência forte do outro lado da fronteira. No vale do rio Jerte temos mais de um milhão de cerejeiras que, durante 10 dias, pintam o vale de branco com a sua flor que dará a vez às cerejas que pintarão as árvores de vermelho.

O clima faz variar o florir, mas ocorre entre a última quinzena de março e a primeira semana de abril. Foi muito difícil ver uns ramitos de cerejeira ainda com flor porque já estávamos na altura da cereja surgir e começar a amadurecer. Há que ter a noção que primeiro florescem as zonas mais quentes e mais baixas do vale, só depois começam a florir as cerejeiras que estão mais altas, num clima mais frio. Para organizar uma viagem em buscas das flores deve-se começar pelas zonas de menor altitude.

Descer o vale é um prazer. Imaginam-se as árvores em flor e nasce uma vontade de voltar no próximo florir, vêem-se as piscinas naturais e já se quer voltar no verão para poder mergulhar no rio. Ou seja, há sempre vontade de voltar. O vale une Plasencia a Tornavacas e nós passeámos em alguns destes locais.

Plasencia

A cidade foi ponto estratégico militar, bastante importante para a reconquista das cidades em volta durante as guerras sucessivas. Aqui casou-se D. Afonso V com Joana de Trastâmara (pais da Princesa Santa Joana que viveu em Aveiro e de D. João II) e viveu Fernando de Aragão. Tem uma das muralhas melhor preservadas da Europa, mandadas construir por D. Afonso VIII. Passa por ela a Via de la Plata, a estrada romana que unia Mérida a Astorga.

Às terças-feiras, a Plaza Mayor é ocupada por um mercado de produtos locais, como pimentão. A câmara fica na praça (Palacio Municipal) e o Abuelo Mayorga martela o sino no campanário do edifício a todas as horas.

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Deve-se visitar a Catedral Nova, com um estilo semelhante às da região. Gótica, grandes abóbadas, colunas altas, a entrada custa 4€. Da Antiga Catedral levou-se o coro, em 1567. É  conhecido como um dos mais bonitos de Espanha, com cenas do Novo e Velho Testamento.

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Desta época conservam-se as muralhas, as portas de entrada na cidade e algumas torres. A Torre Lucía tem o centro de interpretação medieval da cidade. De referência também as Puertas del Sol, de Trujillo, de Berrozana e las de Coria. Nós entrámos pelo Cañón de la Salud, ou Puerta de Trujillo. Bem perto podem ver uma parcela das muralhas.

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Fora das muralhas encontra-se o Acueducto de santo Antón, junto à Torre Lucía. Tem várias igrejas e palácios a visitar, como a Casa-Palacio de los Monroy, o Palacio de los marqueses de Mirabel ou o Convento de las Claras. A cidade, apesar de não ser muito divulgada como destino turístico, atrai muitos visitantes na época das cerejeiras em flor e na semana santa. É um bom destino medieval, bem conservado. Tem vários parques nas redondezas, sendo o parque de los Pinos o mais vistoso. Também tem um museu de esculturas ao ar livre, o Parque de Esculturas, no bairro Berrocal.

Cáparra

Perto de Plasencia encontra-se a Ciudad Romana de Cáparra. Foi um centro importante para os romanos, por lá passar a Vía de la Plata, unindo Emérita Augusta (Mérida) a Asturica Augusta (Astorga). Tudo está em ruínas, como o anfiteatro, as termas e as habitações (domus). O arco quadrifronte é a construção melhor preservada. A entrada é grátis, tem casas de banho e máquinas de venda automática, mas pouco atrativas. Fecha às segundas-feiras. Se o desvio for propositado e não tiverem um interesse específico pelo período romano, entendemos que podem passar, apesar de ter algum interesse para compreender como funcionavam as cidades no império romano.

La Vera

O Mosteiro de Yuste e a Garganta la Olla são o ponto alto e, aliás, as únicas coisas que visitámos.

De Garganta la Olla parte uma trilha circular de 13 km em torno da Loma de la Atalaya  que vos leva ao Mosteiro de Yuste. Da Plaza 10 de Mayo parte para a Puente de San Salvador sobre a Garganta Mayor, paisagem semelhante à dos Infernos. Passa-se no Mirador de la Serrana, na Fuente Blanca, no Mosteiro, na Cruz del Humilladero, nas ruínas do moinho de Tomas Torres até à Puente de Cuacos, o fim do percurso. São 4 horas de caminhada. A estátua da serrana é uma memória à lenda de La Vera, a mulher  bonita vestida de caçadora que seduzia, embebedava e matava os homens nas serras da região. Há quem ache que a serrana existiu, que foi uma personagem literária ou até mito urbano, mas celebra-se na primeira semana de agosto o feriado da serrana de La Vera. É de La Vera que o pimento vermelho que dá origem ao pimentón de la Vera (DOP) vem.

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Garganta de Los Infiernos

A 36 km de Plasencia encontra-se Tornavacas, a outra ponta do vale homónimo, passando pela Reserva Natural de la Garganta de los Infiernos. A reserva fica entre a Sierra de Tormantos e a Sierra de Gredos. Tem três glaciares, o de la Serrá, o de San Martín e o de Asperones. Tem várias trilhas possíveis, umas mais extensas que outras. Nós não tínhamos planeado fazer caminhadas, achávamos que não íamos ter tempo, mas não pudemos resistir a chegar a Los Pilones.

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A trilha amarela leva-nos até Puente Nuevo, mas passa em los Pilones, o que já dá um percurso bastante bonito e de pouca dificuldade, que se faz em 2 horas (total de 6 km ida e volta). Já a trilha ciano tem 16km, circular. São 7 horas de percurso e dificuldade moderada. Está devidamente marcada a amarelo e branco, chamada de trilha Garganta de Los Infiernos. Ambas passam no Mirador Chorrero de la Virgen.

Vão-se cruzar com muita gente, desde pessoas equipadas para caminhar, até aos que decidiram à última hora avançar trilha fora para verem até onde conseguem chegar. As trilhas começam no Centro de Visitantes, onde encontram veículos 4×4 para vos levar a Los Pilones, se preferirem a opção sem esforço. Há também um parque de campismo e um café/restaurante. Mais uma vez, como em Monfragüe, recomenda-se levar água, calçado confortável, lanche ou almoço. Aqui não pode faltar o fato de banho, se o tempo chamar a banhos.

Onde dormir:

Qualquer uma das localidades do vale serve, mas o ideal é utilizar o vale como percurso entre duas cidades e por isso começar em Plasencia, a cidade é gira, com um centro histórico pequeno. Também se pode ir para La Vera em busca da rota do pimentón. Afinal, aqui é a zona onde se secam e fumam os pimentos vermelhos para moer e vender como pimentão.

Nós ficámos no Hotel Los Granados, mais deslocado do vale, mas de ótima qualidade. Fica em Navalmoral de la Mata. O restaurante é bom, o quarto espaçoso, e o pequeno-almoço muito completo.

No Valle del Jerte ficaríamos talvez no Hotel Hospedería Valle del Jerte. Tem piscina e a paisagem é muito bonita. Mais rústico, sugerimos o Apartamentos Rurales La Vega del Jerte e o Casa Rural La Fuente del Jerte.

Não achámos os preços muito apelativos, sempre em torno dos 70€ (época da Páscoa).

 

Onde comer: 

Na região as migas são típicas, mas esqueçam se procuram algo semelhante às migas alentejanas. O cabrito também é um prato típico. O salmorejo é concorrente do gazpacho, uma sopa fria de tomate, alho, migas de pão, azeite, mas em creme.

Em Plasencia comemos no Restaurante Gredos, na Plaza Mayor. Pedimos menus de dois pratos, que incluíam sobremesa e bebida.

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Salmorejo cordobés

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Migas al pastor

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Chuletillas de cordero a la parilla

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