Portugal já foi um país de transporte ferroviário, hoje pouco sobra, entre linhas desativadas e troços sem manutenção. Umas das linhas com grande importância outrora foi a do Vouga, mas pouco durou, menos de cem anos. Apesar de alguns troços continuarem a funcionar a pouco “vapor”, no verão é possível viajar no tempo e percorrer a linha (não toda) numa locomotiva antiga.

A linha começou a ser construída em 1907 e em 1914 circulava-se até Viseu. A sua construção facilitou o transporte de mercadorias, que sendo antes feito pelo rio, dependia das variações do caudal. Nessa altura, Portugal tinha condições para se viajar de comboio de norte a sul, e tinha vários pontos de união com a linha espanhola. Acabava por ser quase a única forma de viajar, porque as estradas eram más e poucas. Em 1882 existia uma linha a unir a Figueira da Foz a Espanha. Em 1910, a Rainha D.ª Amélia foi até Biarritz de comboio. O presidente Bernardino Machado foi de comboio de Lisboa a Londres, parando para visitar as tropas nacionais. Uma viajem que começou a 8 de outubro de 1917, utilizou a fronteira de Vilar Formoso para entrar em Espanha, e durou 18 dias, com 6 noites a dormir no comboio. A linha do Norte e a linha do Dão, Espinho e Viseu, uniam-se através da linha do Vale do Vouga e, por sua vez, o ramal de Aveiro ligava a esta.

O último comboio a vapor desta linha viajou no dia 25 de agosto de 1972. Durante 3 anos não circularam locomotivas a vapor porque dizia-se que eram as culpadas dos incêndios no percurso. Ainda foram substituídos por automotoras, em 1975, mas acabou por se interromper totalmente o serviço em 1990. Hoje, nem toda a linha funciona:

  • de Aveiro a Sernada do Vouga há ligações secundárias, lentas, pouco frequentes, e com comboios vandalizados;
  • de Sernada do Vouga ao Carvoeiro a linha deu lugar a uma estrada e
  • a uma ciclovia, entre a Foz do Rio Mau e Paradela do Vouga.

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O país não tem o esplendor de outrora enquanto projeto ferroviário, e a maioria destas linhas tornaram-se secundárias, existindo vias rápidas automóveis ou auto-estradas por quase todo o país. O desinvestimento neste meio de transporte é conhecido, os comboios são demasiado lentos, estão constantemente atrasados e, apesar de se poder comprar bilhetes mais económicos com alguma antecedência, comparativamente com uma viagem de carro ou de autocarro, o serviço está a anos-luz da qualidade da rede ferroviária da europa, o que é pena. A Raquel viaja muito de comboio e é obrigada a saber de cor os lugares do intercidades que têm tomadas, e nunca pode contar com o WIFI do comboio. Não é raro encontrar os comboios mais sujos que limpos, por culpa dos utilizadores, claro. Em percursos em que faz concorrência direta com a Rede Expressos, a CP fica invariavelmente a perder.

A CP costuma aproveitar o verão para pôr a circular os comboios históricos do Vouga e do Douro. Infelizmente, estes programas, nem sempre têm a adesão que merecem, principalmente porque as pessoas não acreditam no projeto CP, acham que não vale a pena, e porque não há muita divulgação, excepto nas estações e comboios.

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A viagem: 

O programa inclui uma paragem em Águeda, uma cidade que não é novidade para nós, mas a verdade é que nos faltavam algumas fotos para o artigo sobre a cidade e esta paragem veio mesmo a calhar. Além disso, julho é o mês do AgitÁgueda e de estrear uma nova decoração nas ruas.

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A locomotiva, ou o vouguinha, como é carinhosamente chamado, é uma automotora movida a diesel e composta por três carruagens antigas, do início do século XX. É fácil perceber que, tanto no exterior como no interior, não são as três iguais. Todas elas dizem 3, que é a classe de viagem, os bancos são de madeira e dispostos em grupos de 4 lugares. Não há muito espaço, nem entre bancos nem nos corredores, e o grupo de Cantares senta-se nos lugares livres para dar o seu espetáculo.

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Programa:

13:40h – saída de Aveiro

Ainda na estação de Aveiro, vendedoras vestidas a rigor tentam vender ovos moles e licores, acompanhadas da animação a cargo do grupo de cantares que nos irá acompanhar durante a viagem. Pode-se provar um pastelinho de Águeda, gratuito, e até podem circular toda a viagem em pé, nas pontas das carruagens, e de cabelos ao vento, tudo incluído no preço da viagem 🙂

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15:00h – chegada a Macinhata do Vouga

Visita ao Museu Ferroviário. O preço normal do bilhete é 2€ e só fecha à segunda-feira (neste caso está incluído no preço da viagem).

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Ao chegar a Macinhata somos recebidos pelo chefe de estação, devidamente trajado à época. Explica que a bandeira é desenrolada à chegada e enrolada à partida. Há sinalética luminosa com uma lamparina. O museu tem fotografias de época e está decorado como uma sala de espera, com um banco de espera e os horários expostos. Depois das apresentações feitas pelo chefe de estação há uma pequena encenação que nos mostra como a diferença de classes era levada a sério nas viagens de comboio de antigamente. A sala está demasiado cheia e torna difícil associar as vozes às personagens, porque não se consegue ter visibilidade para todo o espetáculo.

Na segunda sala temos quatro máquinas a vapor. Os modelos alemães, com que a Alemanha compensou Portugal após a derrota na Grande Guerra, precisavam de três horas a queimar carvão para produzir vapor. Os funcionários faziam jornadas de trabalho de dezasseis horas e aproveitavam o vapor  do funcionamento do motor para cozinhar.

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Ao fundo do museu encontram o vagão salão pagador, SE401. Neste salão seguia em envelope fechado o salário de cada funcionário. O pagador entregava os envelopes ao chefe da estação, já endereçados aos funcionários, tendo este de conferir o valor no ato de entrega e lavar as mãos antes de receber o dinheiro. Há vários veículos históricos em exposição, não fotografámos todos. À direita a auto-rail (automotora) ME54, construída em Sernada do Vouga, que se assemelha muito a um autocarro. O último vagão carregava pedra ou carvão para ajudar a travar.

Mais uma encenação para nos apresentar a ambulância postal-carruagem dos correios. Qualquer pessoa colocava o que tinha a enviar no marco. Vinha um funcionário que carimbava as cartas com um carimbo que dizia em trânsito e distribuía pelas localidades. Era a forma mais rápida de enviar cartas.

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O veículo amarelo era para os inspetores, que podiam viajar escondidos por cortinas.Mais à frente temos a ME53, também de produção nacional. A mesma carruagem tinha Primeira Classe e Terceira Classe, tal como a ME54. Da porta para a frente, primeira, o restante, terceira. A publicidade da pasta Couto é original.

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Dizem que o pior dia para circular no Vouguinha era a segunda-feira, pela feira de Espinho. A viagem era feita com lotação esgotada e incluía galinhas, patos e outros companheiros de viagem. Em Sernada de Vouga chegavam a cobrar 800 bilhetes.

No corredor encontra-se a mota para inspecionar a linha, adaptada para circular nos carris.

16:25h – saída de Macinhata do Vouga

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16:48h – chegada a Águeda

Passeio pelo centro histórico. Como queríamos tirar fotos do que temos para publicar, facilmente perdemos o grupo. Parte do grupo recorreu ao comboio turístico para chegar ao centro, por mais 2€, a outra parte desceu e subiu a pé. Era dia de desfile de bandas dos Bombeiros Voluntários. Algumas deixaram-nos verdadeiramente surpreendidos.

Também encontrámos o Scott Calum a ensaiar para o concerto da noite e passeámos pela cidade para ver a nova decoração do AgitÁgueda, que anualmente vai mudando, desde 2012. Mudam os guarda-chuvas em três ruas: Rua Luis de Camões, Rua Jornal Soberania do Povo e Rua José Maria Veloso. As escadas que partem da Igreja Santa Eulália para a Rua Luis de Camões. A Rua Fernando Caldeira também tem todos os anos desenhos novos e a decoração das ruas Dr. Eugénio Ribeiro e Eng. Júlio Portela também mudam. Neste momento, as decorações destas ruas são as nossas preferidas.

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18:15 – saída de Águeda

Depois de uma tarde cansativa, nada melhor que o embalar do comboio para uma sesta.

19:00 – chegada a Aveiro

 

Pontos Fortes:

  • A viagem no tempo;
  • A encenação no Museu;
  • O restauro do comboio e
  • A interação com os moradores das vilas no percurso (vão-se fartar de dizer adeus).

Pontos Negativos:

  • O preço. Para quem conhece a região, como nós, 30€ é muito;
  • O cheiro a combustível;
  • A dureza dos bancos, afinal, é uma carruagem de 3.ª classe e
  • A insistência na compra de produtos regionais na estação de Aveiro. Quando uma pessoa diz que não tem dinheiro físico devia bastar dizer uma vez. Sabemos que isso transcende a CP.

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Recomendamos?

Sim, principalmente no mês de julho, para ver Águeda no seu esplendor do AgitÁgueda. Em grupo é melhor, se juntarem 4 pessoas ficam com uma só para o grupo.

Preço: 30€ por pessoa. Mais uma vez, tal como explicámos aqui, quando escolhemos fazer a viagem na linha do Douro pelo The Presidential, vale pela experiência. Sabemos que uma viagem normal custa uma ninharia (4,15€), mas aqui estamos a pagar pela experiência.

365 dias no mundo estiveram no Comboio Histórico do Vouga a 20 de julho de 2019

 

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