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O Cemitério dos Prazeres foi construído em Campo de Ourique no ano de 1833, dois anos antes da lei da saúde que obrigava a enterrar os mortos em locais criados para o efeito. O cemitério foi criado para evitar que as vítimas de cólera (surto de junho de 1833) fossem enterradas nas igrejas, conventos e outros espaços religiosos, deitadas ao mar ou deixadas ao relento, como era habitual. A lei da saúde gerou muita contestação, que culminou na Revolta Popular Maria da Fonte, iniciada em Santo André dos Frades em 1846. As mulheres protestaram, armadas de gadanhas e foices, contra a proibição de não poder sepultar os mortos nas igrejas.

Para enterrar as vítimas da cólera surgiram dois cemitérios em Lisboa: este e o do alto de São João. O cemitério dos Prazeres foi logo adoptado como última morada pelas famílias ricas. O seu misticismo milagreiro, como a proximidade à Fonte Santa (entre os números 111-D e 13 na curva da Rua Coronel Ribeiro Viana), atraía para aqui as grandes famílias de Lisboa. Dizem que aqui apareceu a imagem da senhora dos Prazeres e que a água tinha propriedades curativas. Hoje é só água da EPAL.

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Tal como em Buenos Aires, na Recoleta, ou no Cementerio General de Santiago do Chile, há jazigos que são verdadeiras obras de arte, onde esculturas de artistas de renome enfeitam a última morada das famílias abastadas. Este cemitério possui 12 hectares e mais de 7.000 jazigos.

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A Câmara de Lisboa organiza visitas guiadas aos cemitérios da cidade através da Divisão de Gestão Cemiterial. Pretende-se revitalizar um ambiente associado à dor e ao luto, mostrando que também pode ser um local de histórias e arte. O cemitério é considerado pela ASCE (Associação de Cemitérios Europeus) como um dos mais ricos em arte romântica.

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Vários percursos temáticos foram criados pelo agrupamento de jazigos, como a história do cemitério, personalidades, arquitectura, escultura, simbologia, maçonaria, jazigo Palmela e heráldica. Cada rua do cemitério tem uma placa que identifica o seu número e a simbologia de cada tipo de percurso a que pertence.

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Encontram-se também aqui o maior e mais velhinho agrupamento de ciprestes da Península Ibérica e o maior jazigo privado da europa, o dos Duques de Palmela, projecto de Cinatti. Tivemos a sorte de o encontrar aberto. É um mini cemitério dentro do grande cemitério. Há esculturas de renome e uma obra avaliada em milhões, de Canova, o cenotáfio que se encontra à direita da porta de entrada.

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Há algumas curiosidades engraçadas. O talhão dos Bombeiros Sapadores foi doado pela Câmara em 1911, tem uma cripta de 1878, projetada pelo mesmo arquitecto do Campo Pequeno, Dias da Silva. Pode-se visitar a antiga sala de autópsias na Capela dos Prazeres. Até Fernando Pessoa ter sido transladado para os Jerónimos esteve, como a sua Ofélia, sepultado nos Prazeres. No Talhão dos Artistas há nomes famosos, como Cândida Branca Flor, Mário Cesariny, duques de Valmor, e outros nomes, alguns entretanto transferidos para o Panteão Nacional. Há ainda o Talhão da PSP e os Jazigos dos Escritores.

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Há que lembrar que os cemitérios vieram tornar a morte mais democrática. Pobres, indigentes, ricos e famosos, vão todos parar ao mesmo terreno depois de mortos. Se inicialmente houve muita resistência da classe alta em ser enterrada ali, mais tarde decidiram que fariam as suas romarias de domingo nos Prazeres. O passeio de domingo, após a missa, ganhou importância como evento social da época. Ia-se aos Prazeres, não só chorar os que tinham partido e prestar homenagem, mas também para ver e ser-se visto. Passeavam-se os melhores fatos, mostravam-se as filhas casadoiras, e expunha-se toda a riqueza nos jazigos da família.

Há jazigos que fazem lembrar os seus palacetes, sendo até projectados pelos mesmos arquitectos. Exemplo disso é o jazigo da família Carvalho Monteiro (jazigo 1382, rua 11, à esquerda) projectado por Luigi Manini, tal como a Quinta da Regaleira, propriedade da família. Dizem que a chave que abre o jazigo abre também os Palácios da Rua do Alecrim e da Quinta da Regaleira.

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Mas nem tudo são rosas. Se os jazigos continuam a ser obras de arte de valor histórico, das famílias não se pode dizer que todas continuaram abastadas, tendo algumas problemas de sucessão da herança do espaço. Para a direção do cemitério, a manutenção do jazigo é da responsabilidade da família, mas não é fácil convencer os herdeiros de que têm de o manter em bom estado, até porque isso implica, por vezes, um avultado investimento. Há jazigos abandonados, com vidros partidos, portas destruídas, etc.. Um jazigo abandonado pode ser vendido, e o novo dono pode fazer com o espaço o que quiser, excepto em jazigos classificados como tendo importância histórica.

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Tipo de visita:

A visita começa às 10h e dura aproximadamente 2 horas. O ponto de encontro é à entrada. Consoante a curiosidade e o interesse dos visitantes, os assuntos podem dispersar, o que torna a visita dinâmica e repetível.

Se conhecerem a simbologia e fizerem algum trabalho de casa, podem também visitar de forma autónoma.

Como marcar:

Nós marcámos directamente com a Câmara para este e-mail: dmaevce.dgc@cm-lisboa.pt. Disseram-nos quais as datas disponíveis e tipos de visita e nós escolhemos o cemitério dos Prazeres e a data que mais nos convinha.

Chegar lá:

É fácil, há elétricos e autocarros. Nós sugerimos ir no elétrico 28, juntam o útil ao agradável.