Em Santiago é essencial ir até ao Tarrafal. Porquê? Porque a memória é muito importante para não se repetirem erros e Portugal tende a esquecer que também teve campos de concentração.
Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau puderam relembrar uma parte negra da sua história conjunta nas celebrações dos 50 anos do 25 de abril. Foi após este momento que marca a história de Portugal e dos antigos territórios ultra-marinos que o campo de concentração que Portugal criou em Cabo Verde fechou.
Para muitos se calhar este facto é desconhecido, mas Salazar assinou por decreto a criação de dois campos de trabalhos forçados, vulgarmente conhecidos como campos de concentração, um em Cabo Verde e outro em Angola. Para quê e quem? Para os seus inimigos, os opositores, os manifestantes, os rebeldes, quem apetecesse ao regime desterrar lá.
Quando se tenta controlar movimentos reacionários cria-se um problema. Os revoltados têm de ser enclausurados, para serem controlados e servirem de exemplos a futuros opositores, mas são tantos que as cadeias começam a ficar cheias. Salazar começa a receber avisos que o Aljube e todas as esquadras da PSP estão cheias. É urgente criar um novo calabouço para travar os incidentes. É preciso que sejam silenciados, que não haja perigo de fuga, que não haja testemunhas. Há elementos do regime que referem que não chega enviar para as colónias os opositores em regime aberto, é necessário um regime fechado, uma cadeia. Os desterrados nas colónias viviam felizes e contentes, quando a intenção era castigar e humilhar.

O Tarrafal – 1ª fase
O Salazar, que muitos veneram porque ignoram ou fecham os olhos a certos factos, mandou construir o campo do Tarrafal em 1936 como Colónia Penal de Cabo Verde. A foz do rio Cunene em Angola, esteve em cima da mesa e a ilha da Boavista também. O Decreto Lei nº 26.539 é de dia 23 de abril de 1936 e cria uma colónia penal no Tarrafal, na Ilha de Santiago, Cabo Verde. Abriram outras, antes e depois do Tarrafal em Moçambique e Angola.
A escolha do local não foi por acaso. Queriam um local que fosse desafiante, no mau sentido. Castigo, desespero, isolamento, o regime encontrou o que queria na Ilha de Santiago. A Colónia Penal de Cabo Verde abriu com tendas e foram os presos que foram construindo o campo.
O seu primeiro carregamento de “clientes” foi feito de barco que partiu da metrópole. O navio Loanda saiu de Lisboa a 17 de outubro de 1936 com 117 presos. Apanhou mais uns quantos desterrados no Funchal e em Angra do Heroísmo trocou uns presos por outros e seguiu para a ilha de Santiago. Chegou 12 dias depois a 29 de outubro. Levava 158 homens, uns da greve de 1934 e outros da revolta dos marinheiros de 1936 e 54 militares e guardas. Principalmente da revolta dos marinheiros estamos a falar de grumetes com 15 ou 16 anos e muitos marinheiros na casa dos 20 anos, cuja vida foi destruída pois sairam da prisão alguns já com 30 anos. Desta primeira leva morrem 21 presos, por doença. Fala-se num médico que não tinha condições nem intenção de tratar os presos.
Em 1946 Salazar tenta fazer Portugal entrar para a ONU, mas é negado. A 22 de julho do mesmo ano a revista Time publica um artigo sobre Salazar chamado “Portugal Salazar’s: Dean of Dictators – How Bad is the Best?”. Como resposta o correspondente Piero Saporiti que vivia em Lisboa desde 1944 é expulso do país e a revista Time de julho desaparece no território nacional, apreendida pela PIDE. A sua venda é proibida durante 6 anos, revistas encontradas em domicílios seriam confiscadas. Mas são também libertados 100 presos.
O estabelecimento penal funcionou para presos políticos da metrópole até 26 de janeiro de 1954, cedendo à pressão internacional. Francisco Miguel foi o ultimo libertado depois de 6 meses como único preso.
Morreriam no total 32 presos no campo de morte lenta, como era conhecido. Estiveram ali 340 ou 375 (depende da fonte) opositores. Portugal entra para a ONU em 1955.
Em 18 anos só houve duas visitas. Luís Alves de Carvalho e Herculana Carvalho foram as únicas famílias autorizadas a visitar um preso, foram duas vezes e tiraram fotos. Eram os pais de Guilherme da Costa Carvalho e criaram um álbum fotográfico com estas visitas. Guilherme esteve preso de 1949 a 51 no Tarrafal. Existe um arquivo destas visitas em Peniche, no Museu Nacional de Resistência e Liberdade. Fotografaram todos os presos e todas as campas e depois visitaram todas as famílias para levar noticias e conforto e fotografaram Herculana com todos.


Tarrafal – 2ª fase
Os que não gostam de ser contrariados e que têm sede de poder não aguentam muito tempo a perder o controle, e Salazar não foi diferente. O Tarrafal voltou a estar em cima da mesa quando a guerra colonial começa. Se não podia voltar a pôr opositores da metrópole serviria para os opositores nas colónias. Os que lutavam na clandestinidade pela independência tinham de aprender uma lição.
Em 1961 decide-se que o Tarrafal voltará. A Portaria nº 18 702 assinada por Adriano Moreira, ministro do ultramar e pai da atual deputada do PS cria também o Campo de Trabalho de Missombo, no Cuando Cubango, Angola. Reabriu em 1962 para presos políticos oriundos de África como Campo de Trabalho de Chão Bom.
Em fevereiro de 1962 chega o primeiro “lote” de presos de Angola. Segue-se a chegada de nacionalistas de Guiné Bissau no mesmo ano. Em 1968 chegam os de Cabo Verde. De Moçambique esteve previsto a chegada de mais presos, mas acabou por não acontecer. Existia também um Campo de Recuperação de São Nicolau (Moçamedes, Angola), criado no mesmo ano.
Lemos na exposição no museu que as colónias pagavam ao campo de trabalho uma “renda” por cada preso que enviavam. Os de Angola viviam um pouquinho melhor porque este território ultramarino pagava um pouco mais. Da Guiné vinham menos fundos, logo pior tratamento.
Em 1971 a Cruz Vermelha visita o campo e encontra 67 presos. O campo fechou a 1 de maio de 1974. A população vem para a porta exigir a libertação.
Estiveram presos 20 cabo verdianos, 106 angolanos e 100 guineenses.
Em dezembro de 1974 voltam a fechar os portões com 70 cabo verdianos lá dentro, mas a 19 de julho de 1975 as portas abrem-se para sempre.


Tarrafal – Saldo final
No Tarrafal estiveram presos 588 homens, morreram 36. Muitos não foram julgados, ou não foi feito de forma justa. Outros conseguiram ser libertados, mas não esqueceram o que lá passaram. O último dos presos do Tarrafal a morrer foi Edmundo Rosa. Faleceu em 2018. Esteve no Tarrafal dez anos.
Apesar de tudo os presos muitas vezes saíram de lá melhores do que entraram, mais cultos, mais vividos. A mistura de marinheiros, agricultores, motoristas com licenciados na mesma prisão criava um espírito de camaradagem e uma luta pela sobrevivência não do mais forte, mas de todos. Tinham muita coisa em comum, opunham-se ao regime, muitos eram comunistas, estavam presos sem um julgamento justo e eram todos maltratados, má alimentação, sem medicação e todos tinham que trabalhar para construir o campo da morte lenta.
Nem tudo foi mau aqui, naquele desespero de fome, esgotamento, injustiça os presos uniam-se e trocavam experiências. Ensinava-se analfabetos a ler, decorava-se ou faziam-se cópias de livros, partilhavam-se medicamentos, criavam-se filtros de água, fervia-se água, preparava-se a resistência e a luta pela independência, convenciam-se guardas a juntarem-se a eles. Perdia-se a inocência talvez até alguma fé na humanidade, mas ganhavam-se coragem e ferramentas para continuar a luta.


Tarrafal hoje
Depois da independência de Cabo Verde e da libertação dos últimos presos o Campo de Trabalho passa a quartel, e mais tarde a habitação. A sua importância histórica é inegável e o governo de Cabo Verde decide recuperar o campo e criar um espaço de memória.
Em 2000 passou a Museu da Resistência e é recuperado. Tinha só uma sala, financiada pela Secretaria de Estado da Cooperação Portuguesa sobre a Colónia Penal. Em 2006 passou a Património Nacional. A 1 de maio de 2009 passaram existir duas salas, sendo a segunda sobre o campo de trabalho.
Em 2016 o exterior é incluido no espaço museológico e passa a existir um circuito desde a porta de armas até às antigas moradias dos funcionários, dos oficiais e guardas do Campo, caserna, casa de armas, secretaria e o interior do complexo prisional
2021 marca uma nova mudança e
Em 2024 o campo abriu novamente, mas como museu. São dez salas onde se conta o que ali se passava.
Cabo Verde quer concorrer com o espaço a património UNESCO.


Campo de Concentração do Tarrafal – Museu
Ala esquerda:
Frigideira: Já não existe, mas era uma caixa de betão com tecto em chapa que funcionava como prisão mais dura. Atingia facilmente 50º no interior e os presos eram mantidos a pão e água. Foi substituída pela Holandinha.
Holandinha: A nova solitária construída junto à cozinha. Pequena, escura onde se ficava a pão e água.

Biblioteca: com apoio do instituto Camões estão aqui os livros que eram proibidos na época. E há uma secção infantil onde a Maria se encheu de alegria por ver tantos livros.

Posto médico: aqui assume-se que o médico não ajudava ninguém, com a sua célebre frase “assino certidões de óbito”. A vida melhora quando entram como presos um médico e um enfermeiro
Informações gerais do Campo do Tarrafal
Abre das 9 às 17. Aos feriados fecha às 13h. Fecha a 1 e 15 de janeiro, 1 de maio e 25 de dezembro.
Custa 100$ para nacionais e 200$ para estrangeiros,
Crianças até aos 12 anos não pagam.
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